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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Praia Grande (Baía-do-Sol)

SANY2289

Minhas pegadas na praia

hão de quase nada durar...

Talvez antes da maré cheia,

apague-as a chuva,

a frequente chuva

da Baía-do-Sol,

que encharca não apenas

o seio da terra,

mas o coração deste escriba,

liquefazendo lembranças

de um outrora tão volátil

quanto esta tequila

que agora mesmo bebo

―enquanto estas linhas

carimbam o papel―,

com imaginárias mãos dadas

a caminhar de cabo a rabo,

nesta ainda agreste paisagem

da Praia Grande erma de gente,

longa enseada de saudades...

Quantos Tupinambás foram aniquilados,

para que este torrão se tornasse nosso?...

(É a arguição

que meu fantasma

faz em direção às ondas.)

E seu bramido me responde

em meio a lamentos

e maldições

ininteligíveis para mim,

trôpego bêbado, perdido

entre sons, letras e sentidos.

Ah! Praia Grande...

Praia Graaande...

Graaaaaaaaaaannnndddeee...

Mergulho e me perco,

nas ondas me lavando e levando,

indo e sumindo imergindo e emergindo

no mar do sono e do sonho,

líquido fim de encantamento

em molhados braços de Morfeu e Uiara...

Ah! Praia Grande...

Praia Graaande...

Graaaaaaaaaaannnndddeee...

O vento forte da baía traz do horizonte cinzento

a chuva em chicotadas de pingos

sobre as águas e areias,

apagando quase de todo

as minhas tortuosas

pegadas...

Ah! Praia Grande...

Praia Graaande...

Graaaaaaaaaaannnndddeee...

SANY2294

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Capelinha secular

Por Alcir Rodrigues

iscj

O sagrado Coração de Jesus

pulsa gracioso

na paisagem-luz do Chapéu-Virado,

secular coração

arquitetado em pedra

e cimento e fé cristã,

mais de um século e meio

depois de os Cabanos

ali lutarem e morrerem

por seus ideais.

 

Suas vozes ancestrais, em uníssono,

clamam no vazio do panorama

da madrugada: “Nossa luta,

nossa morte,

hão de não ser atos vãos?”

 

Só as estrelas respondem

em um pulsar trêmulo,

linguagem secreta

que só ao tempo cabe

a tarefa de decifrar...

capela scj

Os chalés (ou Tempus edax rerum! )

Por Alcir Rodrigues

 

Chalé em ruína

Os chalés, na orla

                                    da Beira-Rio

são os Moais desta Ilha...

vigiam a baía,

em uma atemporal expectativa,

anacrônicos monumentos

silenciosos de uma Era

que os consome a cada

hora ingrata que passa

e lhes acrescenta

uma rachadura

uma goteira

uma parede ruindo

seja pelo tempo

seja pelos cupins

ou pelo olvido...

 

O luar deixa pingar

seu leite impalpável

em lamentos brancos

sobre seus telhados seculares,

como vaticínios mais agourentos

que o canto do rasga-mortalha...

Tempus edax rerum!

Chalé em ruína a Chalé em ruína b

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A fábrica

 

ScannedImage

Óleos e essências

no passado longínquo.

Mais tarde, tornava o látex

―o sangue branco da seringa ―

a valiosa borracha,

o ouro brando da Belle Époque

                daqui.

Hoje, apenas fabrica sonhos,

nem sombra do que o foi:

o tempo passando uma borracha

nesse passado de glória!...

 

             Entretanto,

também fabrica uma outra realidade,

mitificando esta mais óbvia

do eu-aqui-agora, matando

nossa fome ilhoa de alimentos do imaginário,

oferecendo à mesa

o Mistério da Cobra Grande,

administradora de fato

do fantasmagórico prédio,

ruína de um fausto

que soterra o Ontem

sob os escombros

                   do Agora.

Imagem 45 025

Obs.: esta foto é recente; já a anterior é bem antiga, cedida a mim pela D. Deuzuíte Barros de Oliveira.

terça-feira, 28 de junho de 2011

No Porto Artur

Por Alcir Rodrigues

imagesb

A vista desliza pela paisagem equatorial...

 

A água e as ondas

no combate contra o muro...

 

O Chapéu-Virado...

O Farol, o Hotel, a Ilha...

A Baía de Marajó

bebe o céu azul equatorial,

onde os barcos resvalam

em fina película líquida

e vêm ancorar no mar de meus olhos,

bem no interior de minha íris...

 

O ritmo de vai-e-vem constante

quase me hipnotiza...

 

Ao lado, a morena-flor

―suas mãos nas minhas ―

me oferta uma outra vista,

de um jeito assim tão hipnótico,

onde sempre posso ancorar meu olhar

em plena paz...

domingo, 15 de maio de 2011

Praia grande

Por Alcir Rodrigues

Cópia de Praia Grande - Mosqueiro

I

Independentemente das furiosas

surras das marés altas,

que com suas ondas fustigantes

―línguas líquidas de marinhos

dragões―

bombardeiam e carcomem as falésias,

ainda assim é

Grande,

bastante grande,

não tão grande como o rio-mar,

lá adiante, que é demasiado maior.

II

Aqui em frente a mim, a praia, clara faixa arenosa de longa longa margem,

em minha memória de um ontem bem recuado lá para atrás...

Pois no agora, tanta tanta tanta pedra onde só havia fina areia...

Meu coração, que tem muito de pedra,

no entanto, se confrange

quando olho o hoje

e só vejo o ontem

no interior de cujo âmbito habitam

o bate-papo e o bate-bola, além da bola-ao-copo

entre velhos amigos...

Na pele, ainda agora a impregnar-me

a brisa cálida e o por do sol dentro destes olhos,

a me contagiar com a alegria das cores do verão,

nos chamativos trajes de banho (o)usados,

trajes que passeiam no corpo de veranistas

em evocações intensas

na nostalgia desta paisagem plúmbea

do inverno amazônico

a povoar tudo aqui...

III

Tudo tudo passa em branco e preto e em cores

frente aos olhos,

enquanto a caneta banha de tinta a página esculpindo nesta praia de papel

estas letras incertas, evocando,

rememorando ocasiões

que se inscreverão na História

como imagens baças, máscaras de fatos,

e mascarados de Carnaval,

como o cara chamado Pelado,

entre outros quase anônimos, tais como ele,

figuras sempre repetidas ali pelo bar O Harém,

cuja antiga dona apelidou a todos os pinguços

(nós, brincantes do Bloco Tá Feio)

de

Caras-de-espanta-freguesia!...

IV

Pingam as chuvas frias no corpo

e a pinga nos lábios...

As piadas riem de nós,

as pescarias

e avoados de peixe

e siris assados na brasa também

não se esquecem de nós,

coisa mais que fácil de fazer

para aquelas belas banhistas hipnotizando

os que mendigavam por apenas

uma inverossímil recíproca troca de olhar.

Desenha-se com contornos nevoentos

Um panorama em que ainda subsistem

as faveiras, a solitária árvore da beira

próxima à linha d’água de nossos frequentes banhos,

afastada razoavelmente da ilha de pedras.

Os ônibus de piquenique e as brigas

frequentes, naquela época, eram um tosco atrativo já meio tradicional, até

V

As ondas agora, em suave e incessante falecimento,

na praia e, por isso mesmo, neste papel,

não as posso ver só como fenômenos,

mas como ecos,

como vozes saudosas

de épocas mais promissoras, que se fazem assim nóstalgicas,

soluçando lamentos por um grande bem perdido, recôndito,

que estas pardacentas águas,

de propósito,

vão diluindo, liquefazendo,

como mensagens de letras em transparências

quase imperceptíveis,

que emanam das linhas e retornam para

a vaguitude de meus pensamentos,

perdidas em sinapses estéreis,

ondas mortas,

vazias,

           vagas ondas,

que vêm e que vão,

     trazendo e levando

             momentos já perdidos,

contudo, em parte recuperados por esta grande praia/página

                        chamada memória.

Não só a minha, mas inclusive a tua, a nossa...

A memória de todos que estiveram lá... e aqui também...

terça-feira, 29 de março de 2011

Big Brother é o circo televisivo

Pão e circo 2

Por Alcir Rodrigues

(Em 2006, ao me submeter a um determinado concurso, elaborei a “redação” abaixo, uma das exigências da prova. Na verdade, deveria atualizar o texto; contudo, em linhas gerais, pouco ou quase nada mudou em relação às afirmações feitas. Posto isso, segue o texto, sem nenhuma alteração. Aproveitando o ensejo em que mais um Big Bosta acabou –infelizmente, só para outro iniciar—, republicamos esta matéria, para a reflexão do leitor.)

Já dizia o imperador romano Comodus que o povo precisava "de pão e de circo" ― em latim, PANIS ET CIRCENSIS ―, ou seja, comida e diversão. A população romana foi iludida por ele, alienada dos graves problemas por que passava o Império.

Hoje, já não é o circo o grande atrativo da massa, mas a televisão, que não cumpre seu papel social. Deveria oferecer uma programação variada, havendo espaço para temas diversos: arte, cultura em geral, esporte, política e economia, saúde, saneamento, diversão, etc. Porém, a concorrência mercadológica pela maior audiência, referida pelo estudioso Erasmo Borges, criou um ambiente de selvageria: um programa imita o outro, baixa o nível, tudo se faz pela maior audiência, porque aí se terá um patrocínio mais encorpado, geralmente no horário nobre.

Se a televisão é o circo moderno, é apenas indústria do entretenimento. E se "vinga" o programa, vem uma enxurrada de outros parecidos: Casa dos Artistas, Fama, Big Brother, etc. Todos são a mesma "cara", encarnados e esculpidos, trazendo à tela só o entretenimento fácil, ilusório, alienante, porque não debatem as mazelas sociais nem propõem mudanças. Mas, se assim o fizessem, decretariam sua própria extinção.

Não importa qualquer aparente virtude ou quaisquer caracteres qualitativos dos participantes do BBB: carisma, simpatia, sinceridade, lealdade, pois tudo isso é escamoteado, já que o que estava em jogo era R$ 1.000.000,00. Tantos zeros "transformam" os ideais humanos e disfarçam a verdadeira essência do ser. E os índices de audiência podem sugerir que a televisão dá ao povo o que este precisa. Só que esse povo jamais foi consultado sobre isso. Oxalá pelo menos o "pão" de Comodus fosse hoje transformado em alimento cultural. Mas estamos longe disso. Muito longe.

Pão e circo

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/9867/1/Big-Brother-e-O-Circo-Televisivo/pagina1.html#ixzz1I1KgchVn