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terça-feira, 1 de março de 2011

O poema "O bicho"

O poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, integra o livro de poesia Belo belo, publicado em 1948. É tipicamente modernista: é o que se pode observar e afirmar, de chofre, em todos os aspectos: sonoro, lexical, sintático e semântico.
O texto se apresenta sob uma forma não-fixa e não-tradicional (não é soneto, ode, écloga ou haicai, por exemplo), dividido em três tercetos e um monóstico, com versos livres (isto é, polimétricos) com apenas rimas ocasionais. Observe:


Vi/on/tem/um/bi/ cho (5 sílabas poéticas)

Na _i/mun/dí/cie/do/pá/tio (4)

Ca/tan/do/co/mi/d/a_en/tre_os/ de/ tri/ tos (9)




O 1º verso é um pentassílabo (redondilha menor); já o 2º, um hexassílabo; e o 3º, um eneassílabo, o que comprova a polimetria ou versilibrismo.
Abaixo, perceba as rimas ocasionais:

“Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.”

A rima achava/examinava/cheirava não tem classificação na poética tradicional. Já a rima gato/rato poderia ser chamada de paralela ou emparelhada.
O ritmo poético, propriamente dito, surge apenas no 3º terceto. Nas demais estrofes, predomina o procedimento da prosa, como, aliás, é bastante comum a um texto narrativo, como é o caso do texto em questão.
No que diz respeito ao léxico, o poema apresenta apenas dois vocábulos da língua culta: detritos e voracidade. Nada que um dicionário não resolva. De resto, como é de praxe em um texto modernista, o nível de linguagem é o coloquial (o do cotidiano). Ou seja, uma linguagem próxima, bem próxima do povo.
Manuel Bandeira organiza “O bicho” como um filme hitchcockiano: vai em conta-gotas revelando-nos a trama, o enredo, para só no final, num clímax de emoção, de suspense, mostrar quem é o bicho -- um bicho-homem. Ou será um homem-bicho? Vejamos, por meio da estrutura da narrativa, a trilha especial por onde nos conduz Bandeira:
“Vi (ele, o eu-lírico, testemunhou o fato) ontem (quando? – no dia anterior ao qual foi escrito o poema) um bicho (quem? – o bicho-homem/homem-bicho) / Na imundície do pátio (onde? – o lugar, o ambiente onde se dá o fato) / Catando comida entre os detritos (o quê? -- a ação, o fato central). //Quando (quando? –- o tempo, o momento em que ocorre o fato) achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade (como? – o modo como age o ser/personagem – o enredo). // O bicho não era um cão. / Não era um gato. / Não era um rato (quem? – aqui, para manter o suspense e elevar apenas no final a um máximo grau a emoção, o poeta diz quem não era o bicho). // O bicho, meu Deus, era um homem (eis aqui o ápice da emoção, do sentimento, da revelação).”
Só um elemento nos falta agora: o porquê: a semântica de tudo que está no texto, suas significações explícitas ou mesmo implícitas, conduzindo-nos a uma fulcral indagação a ser feita: por que “O bicho”, por que tal título? Seria ele condizente com o texto e com o contexto? Lógico que sim, já que o homem (o ser humano enfocado no poema, assim como milhões de outros como ele no mundo) , em face dos descasos dos governos, dos órgãos competentes, da própria sociedade e, muito provavelmente, por ser esquecido por sua família também, encontra-se abandonado à própria sorte, sem ter com que e com quem contar. Não era um tema fictício ou inatual naquela época a denúncia social, nem o seria agora, mais atual ainda do que nunca. É o ser marginalizado, animalizado pela degradação que o atinge física, psicológica e socialmente -- e não por sua escolha, lembremo-nos --, assumindo, aos olhos dos desinformados, ‘atitudes de bicho’.
Contudo, se o primeiro verso (“Vi ontem um bicho”) desperta o leitor para o sentimento da indignação pelo cruel e grotesco destino do “bicho”, e de milhões de desvalidos tais como ele mundo afora, já o último verso (“O bicho, meu Deus, era um homem”), permite o resgate da humana condição do ser, uma redenção, mesmo que apenas no plano do poético. Porém, um poético chocante, pois Bandeira expõe nua e cruamente a dura realidade que a hipocrisia da sociedade capitalista e de consumo tenta escamotear: a existência de centenas de milhões de deserdados das benesses sociais, pessoas que a miséria e o abandono, sem nenhuma dúvida, arrastam para uma condição de quase desumanizados.
Bandeira, por isso tudo, é testemunha de seu tempo e das mazelas sociais de então. Com aparente singeleza, constrói um poema que emociona e desperta para a reflexão, para perguntas imperiosas e que requereriam respostas mais que imediatas: Por que se abandonou o homem? Quem ganhou e ainda ganha com isso? Por que não revolucionamos essa sociedade falha? Podemos -- a curto, médio ou longo prazo (quem dera fosse a curto!) -- solucionar as questões sociais?... Ora, quem diria... É um pequeno-grande poema de um poeta gigante. Viva Bandeira!
E para quem o desconhece, aí vai “O bicho”:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio,
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

"Autopsicografia" e Fernando Pessoa

Poder-se-ia dizer que Fernando Pessoa, como poeta, é um ser de extrema complexidade? Que sua poesia é, em conseqüência desse fato, altamente intrincada, ou mesmo hermética? Parecem ser indagações de grande pertinência, às quais tentaremos responder neste estudo do poema "Autopsicografia", ao qual atribuímos essencial valor dentro da obra desse ícone da literatura de língua portuguesa e (por que não?) da literatura moderna ocidental, isso por ser o texto não só um escrito de agradável leitura, mas também um poema-chave para a compreensão da obra do grande poeta português.

À primeira vista, o que percebemos logo é ser o poema agradável de ser lido, como já dissemos. Isto se dá, talvez, em decorrência do fato de ser uma escritura de apresentação formal simples ─ o que veremos mais adiante, pois o que aqui nos interessa, de momento, é uma visão mais geral conteudística.

Porém, há algo mais por trás dessa aparente simplicidade? Há, sim. Há muito mais. O que o texto nos diz numa leitura mais atenciosa? Diz-nos algo muito importante acerca do ato criador: que o poeta, ao contrário do que se pensava no Romantismo, não só transfigura a realidade, mas transfigura sua própria subjetividade ─ suas emoções individuais, dores, alegrias, anseios... ─ por meio do raciocínio, o que faz lembrar o trecho de um texto seu: "O que em mim sente 'stá pensando". Ora, este é o princípio do fingimento poético de Fernando Pessoa, que se contrapõe ao confessionalismo dos românticos e, em suma, é a essência da teoria intelectualista, que almeja explicar o ato criador.

Deparamo-nos, assim, com uma verdadeira arte-poética pessoana, segundo QUESADO (1976:18). Mas arte-poética de Pessoa, por quê? Ele inicia o poema com a definição: "O poeta é um fingidor". É bem genérico. É como se o enunciado fosse assim: todo poeta é um fingidor (inclusive ele); mas não é só por esse motivo, não. É que, tendo já conhecimento de sua obra, podemos, logo, fazer a seguinte relação: "Autopsicografia" é, em linguagem figurada, a porta de entrada (poema-chave, como nos referimos anteriormente) para o mundo poético pessoano: mundo desdobrado em que o homem Fernando Pessoa é, ao mesmo tempo, o poeta ortônimo e os poetas heterônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis ─ os principais), cada um "com sua particular visão de mundo". E Ricardo Reis torna esse fato evidente nestes versos: "Tenho mais almas que uma. / Há mais eus do que eu mesmo."

O poema aqui estudado é de autoria do ortônimo, ou Fernando Pessoa "ele mesmo", que, segundo a Enciclopédia Mirador Internacional, l989, vol. 16, pág. 8847, "... é o de mais difícil apreensão: a todos preside, fala por todos, mas dá a impressão de ser ele mesmo um heterônimo."

E, agora, perguntamo-nos: por que o título "Autopsicografia"? Para esclarecer essa questão lembramos do lado ocultista de Fernando Pessoa (que chegou mesmo a confeccionar horóscopos para ganhar algum dinheiro), e, em seguida, recorremos a um dicionário específico. Em psicografia encontramos: "Faculdade de os médiuns, sob a atuação de Espíritos comunicantes, escrevem com a própria mão..." E em termos mais simples, achamos o seguinte num dicionário de língua portuguesa: "Ditado do espírito escrito pela mão do médium." Mas existe ainda o prefixo auto. O que podemos deduzir disso? Que o espírito que "encarnou" no poeta, para que este psicografasse seu ditado (do espírito), era o próprio ortônimo, o Fernando Pessoa "ele mesmo"? Podemos reportar aos versos de Ricardo Reis, que citamos. Mas preferimos a seguinte assertiva: "encarnou", por assim dizer, um "sujeito poético" no (médium) Fernando Pessoa, que em linguagem figurada psicografou o que lhe foi ditado. Então, "Autopsicografia" seria o ditado escrito (poema) do eu-ortônimo, "encarnado" em Fernando Pessoa, contendo uma definição de poeta, uma explicitação sobre o fazer poético ─ o processo de criação ─ e também sobre o processo de decodificação da mensagem poética pelo(s) leitor(es).

Estruturalmente, dividimos o poema em duas partes, em que a primeira sofre uma bipartição em estrofes. Explicaremos melhor: a parte primeira se divide em estrofe 1 e estrofe 2; e a parte segunda corresponde à última estrofe.

Na parte primeira o texto apresenta, essencialmente, os seguintes elementos discursivos, na primeira estrofe:

. o poeta como fingidor;

. a dor que ele finge;

. a dor que ele sente.

E na segunda estrofe:



. os que lêem;

. a dor lida;

. a dor que eles não têm.

A primeira estrofe trata do elemento poeta (emissor, elaborador do código) e a segunda, do elemento "os que lêem", ou leitores (receptores, decodificadores). Essa relação íntima emissor/receptores faz com que as duas estrofes constituam uma parte uma, como se o poeta engendrasse uma imagem para um referente, mas que só é captada pelos leitores como um reflexo no espelho. Ou de outro modo: o poeta sente a dor, mascara-a depois ao expressá-la; o leitor sente-a ao decodificá-la, porém não é ela sua dor, é a dor lida, que também já não corresponde às do poeta.

Quesado refere-se ainda a fingidor 1 (poeta) e fingidor 2 (leitor). Não nos deteremos muito neste aspecto. Apenas reforçamos a idéia de ser o poema uma porta de entrada para o mundo desdobrado de Pessoa em heterônimos e ortônimo, que se dá por meio do eixo sentimento/pensamento, que é linha-diretriz em "Autopsicografia".

Na parte segunda temos um reforço da primeira. O advérbio assim, no primeiro verso dessa estrofe, com sentido de desse modo, dessa maneira, faz uma espécie de (perdão pela redundância)"remissão para trás" ─ é, portanto, um anafórico ─ , o que caracteriza o aspecto de reforço ou redundância. Os principais elementos do discurso aqui são "razão" e "coração". Numa linguagem bem metafórica, em que estabelece a ligação entre o coração (sentimento) e um brinquedo ("comboio de corda"), o poeta diz que o sentir entrete (ilude, diverte) a razão, o pensar, como se o processo de criação também fosse um jogo.

A despeito de toda essa complexidade conteudística, é "Autopsicografia", como bem já o frisamos no início deste estudo, de estruturação formal simples. E a par de tudo o que é novidade em sua obra, entretanto, Pessoa "ele mesmo" utilizou-se também de recursos tradicionais: é o "poeta original e moderno dentro do tradicional", como salientou Celso Pedro Luft.

A construção estrófica em quadras (três) e o metro em redondilha maior (lembrando quadrinhas populares, mas com musicalidade bem pessoana) configuram claramente o gosto do autor pelo folclórico e popular.

O esquema rimático apresentado em cada estrofe é dos mais singelos: abab, abab, abab ─ rimas alternadas, sem lapso algum de preciosismo, pelo contrário, visto serem as rimas, quanto ao vocabulário, ricas e pobres. Há uma total inexistência, portanto, de raras, ou preciosas. Além de que, a par de todo um caráter formal simples apresentado, ainda encontramos algumas rimas que podem ser rotuladas, segundo a poética, como imperfeitas.

O poeta é parcimonioso quanto ao uso de figuras de linguagem, pois só percebemos com clareza a metáfora (principalmente) e a elipse.

Se tivermos que responder às questões propostas no início deste texto, diremos que o poeta é, realmente, como vimos no decorrer de nossa argumentação, um ser humano complexíssimo, juntamente com sua obra (é lógico), que entretanto não é hermética. A complexidade não deixa de ser uma marca do século XX, e Pessoa é homem e poeta deste século.

***

Para quem desconhece a obra, aqui está ela, para seu deleite e admiração, conforme figura no livro O eu profundo e os outros eus, página 104:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

***

Bibliografia

1. AULETE, Caldas.Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Delta SA, 1981. V. 4.

2. ENCICLOPÉDIA BARSA. Rio de Janeiro─São Paulo, Encyclopaedia Britannica Editores Ltda, 1981. p. 261.

3. ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. São PauloRio de Janeiro, Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1989. V. 16, p. 8846-47.

4. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Pequeno dicionário brasileiro de língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira SA, 1966. V. 2 (E-O).

5. GRANDE ENCICLOPÉDIA DELTA LAROUSSE. Rio de Janeiro, Delta AS, 1979. p. 5295.

6. PAULA, João Ferreira de. Dicionário de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo. São Paulo, Banco Cultural Brasileiro Ltda, 1970. V. III.

7. PESSOA, Fernando. O eu profundo eos outros eus: seleçãopoética;seleção e nota editorial de Afrânio Coutinho. 20ª ed. Rio de Janeiro, N. Fronteira, s/d.

8. QUESADO, José Clécio Basílio. O constelado Fernando Pessoa. Rio de Janeiro, Imago, 1976. 125 p.

O entre-lugar do discurso latino-americano

SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978.

Publicado no livro Uma literatura nos trópicos, este ensaio logo avulta no conceito de seus leitores, estudiosos de literatura, ou não, por estar vinculado aos Estudos Literários tanto como por alçar vôos mais abrangentes, em direção aos Estudos Culturais. Na ordem cronológica, aparece em primeiro plano no sumário, seguido destes outros: Retórica da verossimilhança, Eça, autor de Madame Bovary, O Ateneu: contradições e perquirições, A bagaceira: fábula moralizante, Os abutres, Caetano Veloso enquanto superastro, Bom conselho, O caminho circular da ficção, O assassinato de Mallarmé e, por fim, Análise e interpretação.

Resenhista: Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues

Ao buscarmos uma chave de leitura para resenharmos este texto, desde o subtítulo do livro, em cuja obra este ensaio está enfeixado "Ensaios sobre dependência cultural" , desde o próprio título O entre-lugar do discurso latino-americano, até mesmo em suas duas epígrafes, devemos partir da idéia de que o autor se situa realmente como um ensaísta (como já esboçamos no parágrafo anterior) que se arma de pressupostos não só dos Estudos Literários, em esferas mais estritas, mas também do conhecimento dos horizontes mais largos dos Estudos Culturais, cujas 'ferramentas' metodológicas vai buscar nas pesquisas mais contemporâneas dentro do âmbito da Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Etnologia, etc., todavia não de maneira superposta ou sob forma de miscelânea, mas de modo transdisciplinar, de forma extremamente coesa e coerente com os tópicos que procura analisar, comparar e (re)interpretar, buscando soluções novas para problemas não tão novos assim, como o preconceito entre metrópole e colônia, colonizador e colonizado, europeu e latino-americano, etc., com o caráter de superior sempre atribuído aos membros primeiros destes pares dicotômicos, ficando os segundos com o estigma de inferiores. E por causa de seu posicionamento frente a problemáticas contemporâneas dos Estudos Literários, é difícil ler Santiago obrigando-se a situá-lo frente às correntes críticas contemporâneas, tendo em vista sua flutuação coerente entre todos os pós-estruturalismos (Marxismo, Desconstrução, Teoria Pós-Colonial, etc.).

Para Silviano Santiago, como já dito, faz-se necessária uma inversão de valores, buscar para a Latino-América seu lugar no mundo da cultura, e da literatura. E aprofundando a questão, analisando 'microscopicamente' o título do ensaio, diríamos ser um lugar entre outros (lugar de interação, de dialogismo bakhtiniano mesmo), o da miscigenação, que não é de um (o europeu) nem de outro (o autóctone), é o do meio, do diferente, do novo, do renascido. O discurso referido seria literário, ou não, de início, pois que no título o vocábulo "discurso" não está determinado, a não ser pela exclusão da Norte-América, tão ou quase tão colonizadora quanto a Europa, quando exporta para os latino-americanos tudo quanto é produto de massificação, em todos os sentidos. Por esses motivos, o discurso dos latino-americanos não pode, não deve e não é europeu, nem, tampouco, norte-americano.

Desde a primeira epígrafe, de Antônio Callado, Santiago já demonstra aderir ao Antropofagismo, à assimilação de virtudes culturais e descarte de valores estéreis e ultrapassados, típicos da Europa colonialista/neocolonialista. Apoiando-se em Foucault, na segunda epígrafe, e mais tarde, no corpo do texto, em Derrida, o estudioso quer estabelecer a negação de noções que sempre algemaram o pensamento do povo que é 'dependente cultural': a continuidade, pela influência, pela duplicação especular que na verdade é uma forma de unificação do que é plural de valores impostos pela violência com que foram transmitidos. Em vez disso, quer ele (o autor) uma (re)valorização do que é diferente e pluricultural, extirpando do discurso literário os valores de unidade e pureza.

Comparando o ensaísta a outros críticos respeitados, percebemos de chofre seu pensamento rebelde: enquanto Antônio Cândido e Flávio Kothe (não citados por Silviano) podem considerar certos autores brasileiros e mesmo outros latino-americanos como escritores de obras "parasitas" (analisando sua produção a partir do prisma das fontes e influências, considerando a verdade de seus textos estigmatizada pela imitação/dívida), o estudioso diz ser necessário declarar falido este tipo de método comparativo preconceituoso, elegendo a diferença como 'o' essencial valor crítico das obras de escritores da Latino-América. Defende uma falsa submissão, uma subversão mesmo, da obra segunda, recriada de uma primeira, que 'sofreria' com esta nova (que a relê, que a reescreve e reinterpreta) um processo de enriquecimento interpretativo, a partir de um pastiche, de uma versão parodística e inquieta.

Desse modo, segundo o autor, deve nascer uma nova Literatura Comparada, renovada e metodologicamente mais bem equipada para seu trabalho de disciplina científica de apoio aos Estudos Literários, os quais, agora, podem ter uma visão mais benevolente em relação a nosso passado literário, dar menor importância a certas condições do tempo pretérito e visualizar o presente primoroso da produção literária latino-americana, com a plêiade de autores extraordinários, como Borges, citado por Silviano, como Rosa, e muitos outros, que só fazem a imaginação voar para um futuro até mesmo extraordinário para esta nova e contemporânealiteratura, que já terá uma tradição autóctone da qual se apropriar, como novos modelos a alimentar a alma literária de mensagens polifônicas, intertextuais, agora supervalorizadas como nunca neste atual horizonte literário, que compreende o escritor como, nas palavras de Santiago, "devorador de livros", um leitor por excelência, antes de ser escritor e antropófago, a realizar a 'travessia', a junção étnica, estilística, multicultural, só possível aos latino-americanos, que, finalmente, encontram seu lugar de discurso: o lugar-entre, o seu-próprio.

Resumo do romance Ponte do Galo


A história do romance Ponte do Galo se passa no início da década de 1920 e divide-se em duas partes, às quais o autor não deu título. Na primeira (que vai da página 03 à 120), o personagem central Alfredo regressou de seus estudos na capital, Belém. Ele tem nesse momento 17 anos, já é um ginasiano da segunda série [1] e retornou para Cachoeira, no arquipélago de Marajó, com o intuito de passar as férias no chalé dos pais, o Major da Guarda Nacional Alberto Coimbra, e dona Amélia, esta que se empenhou como pôde em realizar o sonho do filho de ir estudar na cidade grande.

Na pequena Vila onde nascera, Alfredo passa o tempo revendo personagens familiares, como o tio Sebastião, irmão de dona Amélia, e outros da redondeza, como o Salu da venda, Dadá, Rodolfo e Didico (irmãos de Lucíola, a solteirona suicida que queria criar Alfredo como seu filho) e a prostituta Sabá Manjerona, entre outros conhecidos do personagem. Todavia, acima de tudo, o ginasiano permanecia mesmo era dentro de um recinto do chalé, a saleta, nicho que tomaria para si nesse período, com toda a nostalgia de ter sido espaço de predileção de seu irmão, Eutanázio, morto após quarenta dias de agonia. Era esse também o espaço preferido de seu pai, onde ficavam seus catálogos e livros, além da tipografia.

Instigado por dona Amélia a sair de casa, a dar um passeio, Alfredo teve encontros marcantes com pessoas com quem manteve conversa, pontos altos dentro da narrativa. Foi à casa dos irmãos Saraivas e lá encontrou Dadá, que reclamou, dizendo-se farta da cidade, remoendo mágoa por uma Belém da época em que a vida era mais promissora para sua família. Falou também com o Salu da venda do trapiche que, entre outras coisas, contou a Alfredo que não podia mais ler, pois tinha a vista e a curiosidade cansadas. O cupim é quem lia então seus livros. Encontrou na lagoinha Didico, que lhe disse, mentindo, ter dado seu barco. Encontrou muitos outros personagens que povoavam a cidadezinha de Cachoeira. De todos eles, destaque se dê à Sabá Manjerona, uma prostituta, que lhe facilitou um 'encontro' com uma mocinha da idade dele, página entre lírica e erótica do flanar de Alfredo pelas noites cachoeirenses.

Além do encontro e da conversa mantida com seu tio Sebastião, que lhe pediu segredo de sua estada por ali, destacam-se os momentos memorialísticos do filho do major Alberto. A mente se dispersa e 'viaja' para Belém, para suas ruas suburbanas, perdendo-se em digressões, em questionamentos sobre o paradeiro das personagens Luciana e Andreza, sobre Edmundo e sua lenda, a cavalgar no lombo do búfalo e levar embora consigo as moças de Cachoeira, sobre enfim seu desalento com o tipo de ensino obrigado a 'assimilar' no ginásio.

Pela atitude pacata, sonhadora e passiva de seu pai diante da vida que levava em Cachoeira, o filho não recebia a atenção paterna desejada, como por exemplo a resposta que queria às cartas enviadas de Belém. Por isso, era com a mãe que Alfredo procurava dialogar. Sendo o pai branco e letrado, totalmente diferente da mãe ― negra e iletrada ―, era de se imaginar que ele é quem deveria responder aos questionamentos do filho. Contudo, esse alento somente encontrava na figura de sua mãe. Esta, em dado momento, relembrou e lhe contou o fim de uma história que ficou por terminar quando diante dele, de Mariinha e de Andreza, ainda em Três casas e um rio, perdeu o fio da meada e prometeu para mais tarde terminá-la. Trata-se da história oral "O velho e o lilás".

A segunda parte do romance (da página 121 à 175) situa Alfredo já de volta aos estudos em Belém, cidade antes de encanto para o menino, que aos poucos se transformou, aos olhos do adolescente, em desencanto. Então sua 'musa' deixou de ser uma cidade de sonho (como lhe pintaram Belém em Chove nos campos de Cachoeira [2]), para se tornar uma cidade de periferia, noturna, feia, cidade pós-lemismo [3], decadente e labiríntica para um Teseu que não encontra sua Ariadne, muito menos o fio a lhe guiar na sua busca por Luciana (CHAVES, Ernani, 2006, p. 40). Dona Santa, sua filha dona Dudu, suas netas órfãs Ana, Nini e a sobrinha ausente sempre presente Luciana vivem e emanam vida na voz e na mente do narrador e de Alfredo, possibilitadores, os dois, de nosso passeio ― como leitores que somos ― por uma ponte interligadora entre oAlfredo menino e o Alfredo adolescente.

Assim como em Cachoeira, pontos altos são os encontros e conversas marcantes com inúmeros personagens pelas noites do subúrbio belenense, no perambular sem fim do ginasiano pelas ruas principalmente do Telégrafo, ali pelas proximidades da Ponte do Galo. De dia, entre o ir para e o vir de Alfredo do ginásio, estava sempre ao telefone a dona Brasiliana, sempre a falar alto, a alardear suas influências com os poderes públicos, a dar opinião sobre a "questã" de terras do Cel. Braulino Boaventura ― o Cel. Delabençoe―, sobre a enjeitada filha deste, Luciana, tentando saber de Alfredo alguma informação sobre esta.

Ao perambular de dona Santa pela noite, sempre no seu trabalho mal remunerado de parteira, junta-se a busca zelosa por suas netas, Nini e Ana, principalmente esta, sempre à procura de um velório. Muitas vezes, Alfredo acompanhava a idosa. Outras, o filho de dona Amélia ia sozinho, no que encontrava Ana, sempre a escapulir deste. Nessas caminhadas, era possível ver Zuzu, embaixo da jaqueira, a se defender dos moleques que a perturbavam. É bem patente a chamada de atenção do narrador para as roupas rasgadas e sumárias de Zuzu, a denunciar sua extrema pobreza.

Às conversas com dona Dudu, esta costurando sempre e sempre criticando a ingenuidade da mãe dona Santa em relação às netas desta, junta-se a conversa com Esméia, a que queria conhecer o palacete do Cel. Delabençoe, e acaba por convencer Alfredo, que a conduz pela casa às escuras no fim de Ponte do Galo, quando são por Ana flagrados,escapando de dentro da casa, pulando a janela da frente, quando temos o epílogo do romance, com estas palavras bem significativas e quase proféticas, proferidas por Ana: "― Botaram vocês dois pela janela?"

É possível a errônea inferência de que o tratamento dado ao espaço de Cachoeira seja mais enfático que o dado ao de Belém, em face da disparidade de quantidade de páginas a mais dedicadas à primeira parte do livro, que é de 117 páginas, em oposição às 54 da segunda. Mas a intersecção dos espaços (sobre o que adiante nos debruçaremos com profundidade) anula essa impressão e o espaço belenense avulta em importância no romance.

Embora constitua o sétimo livro do Extremo-Norte, Ponte do Galo, no nosso entender, pode ser lido isoladamente, por compor um todo íntegro em seu universo ficcional. No entanto, sendo assim parte de vasta obra cíclica, sua leitura pode e ― mais que isso ― deve ser feita no contexto do ciclo do qual o livro faz parte, com isso ganhando o leitor um redimensionamento de compreensão, um enriquecimento mesmo do processo de recepção da obra do romancista marajoara, o que pode levá-lo a considerar esse romance como um rio afluente cujo curso deságua em um rio maior, que é o conjunto das dez obras. Assim, as águas que passam por Ponte do Galo (tomando-as aqui como uma figuração da passagem do tempo) certamente já passaram por sob outras pontes e trapiches nos seis romances que o precedem e continuam passando pelos outros três que o sucedem.

Páginas de culpa

Desde criança que comecei a perceber que os livros que não terminei de ler são como viagens iniciadas mas nunca acabadas, e o pior, sempre por acabar, tal como uma maldição a me perseguir, como uma alma penada que não tem destino no mundo porque seu destino interrompido não a deixou seguir até o fim sua viagem.
Assim, muitas viagens tenho por fazer, muitas releituras a recomeçar, pois a estradas pelo meio percorridas não me são mais familiares. Tudo tem de ser reiniciado, passo a passo, estrada a estrada. E cada quilômetro percorrido, uma sina da qual meio pela metade me livro, a alma a se libertar de uma pesada cruz.
Qual dessas cruzes, penso, mais me atormenta ainda hoje? Talvez o Evangelho segundo Jesus Cristo? Talvez O perfume? Talvez o livro inicial da série Em busca do tempo perdido, o romance O caminho de Swan? Muitos livros, muitas histórias inacabadas, plagas jamais visitadas, paisagens nunca admiradas, pessoas excepcionais e desconhecidas, batalhas por vencer, e perder também, experiências a me moldar o caráter, a me fazer crescer em personalidade, mundos a explorar. Entre esses mundos, uma visita inacabada, que quero o mais brevemente possível acabar de fazer, é a visita ao Ulisses de James Joyce, esse irlandês pregador de peças em palavras, esse prestidigitador das páginas, essas que virarei sem pestanejar, logo tenha em mãos o livro, romance-esfinge por decifrar, eu novo Édipo então, todo orgulhoso.
O mesmo acontece com o Grande sertão: veredas, outra esfinge, outro mapa literário de veredas por percorrer, jagunços por enfrentar, o Bem e o Mal a se digladiarem em páginas memoráveis de um estilo de contar falando, de Riobaldo, fazendo as coisas acontecerem diante de meus olhos de leitor atento interessado, meio perdido, meio me achando ali pelo mato, pelas travessias de rios, ouvindo os berrantes dos condutores da boiada. Não sei por que não me perguntam todos os dias, quando caminho nas ruas, como se virando páginas em branco, porém povoadas de personagens promotores de tribunais de literatura, interrogando-me duramente: "Por que parou? Parou, por quê?"
Com o Terra de Caruaru tudo foi diferente: primeiro, porque pedi a um amigo ‘livreiro' -- sempre me trazendo livros que ele dizia ter ganho de alguém, mas que não leria nunca, e eu sempre dizendo "Não!" a princípio e acabando por aceitar o presente -- que me trouxesse esse romance de José Condé, pois dele já lera a novela (maravilhosa!) Vento do amanhecer em Macambira. Estava curiosíssimo pelo que iria encontrar em Terra de Caruaru, só que, por diversos motivos, acabei não passando da página 50. Minha mãe e esposa já o leram e adoraram. Eu já reiniciei sua leitura três vezes; contudo, não dei prosseguimento a ela. É uma prioridade para mim, assim como o Passagem dos Inocentes, que preciso ler com urgência.
Em uma situação como essa, em que vivo constantemente sob a acusação --minha própria acusação -- de culpado por não ler, por não saber da beleza das obras deixadas de lado, com um peso enorme na consciência de leitor frustrado, não há como vociferar um "Protesto!", pois ouviria sempre e sempre um "Mantido!", e com toda a razão do mundo me calaria e assumiria a culpa do crime de ter perdido o que perdi, irremediavelmente. Punição? Prisão perpétua, sem nenhuma página para ler...

Nada para fazer?

O distinto senhor na mão trazia uma garrafa de tequila importada, uma José Cuervo Black, caríssima. A passos lentos, locomovia-se, quase se arrastando em direção aos boxes das atendentes do supermercado. Sim, as atendentes, pois eram todas mulheres.
Ao passar por um carrinho, com alguns poucos produtos em pequenas quantidades, todos eles bem baratinhos, enfiou ali ― entre o feijão, o arroz, a farinha, o charque, o macarrão, o açúcar, o café―, a garrafa da tequila, cobrindo-a, camuflando-a com uma agilidade espantosa e, mais que isso, surpreendente.
Alguns minutos antes, em outra parte do supermercado, uma também distinta senhora protagonizava uma cena similar. Só que o produto camuflado entre outros em um modesto carrinho alheio, não era uma bebida. Era uma barra importada de chocolate suíço, também produto caríssimo.
Mais tarde, na seccional de polícia mais próxima dali ― soube-se, então, que se tratava de um casal, marido e esposa ―, explicaram a situação, muito mais frustrados, em terem sido pegos com a boca na botija, que arrependidos. Tudo começou assim: eles se sentiam entediados, os filhos e netos sem visitá-los, nem ao menos dando notícias, o presidente Lula decretando a ilegalidade dos bingos; em suma, sem nada para fazer, foram às compras.
Já em um supermercado próximo da casa deles, viram a confusão formada quando um sujeito meio embriagado pegou por engano um carrinho de uma mulher, diga-se de passagem muito bem vestida. Ela fez um verdadeiro escândalo. Era só um ‘engano’, mas o pobre coitado foi escorraçado por ela. Foi aí que, num átimo, veio a ideia: simultaneamente, os dois pensaram e tramaram aquela divertida maneira de passar seus entediantes dias de idosos e aposentados.
O delegado, chamando a um canto da sala um sujeito bem vestido, conversava. O homem balançava frequentemente a cabeça, em meneios para cima e para baixo, em anuência com o que dizia a autoridade policial. Em pouco tempo, aproximaram-se, com o delegado, com apenas um gesto, dispensando o escrivão, que se evadiu depressinha, como se lhe chamasse aquele fumegante cafezinho lá da copa.
― Seu Jurandir, dona Amélia, sou o delegado Alfredo. Este aqui é o gerente do supermercado, senhor Alberto. Ambos concordamos que, se nos derem garantias de que não vão mais fazer o que fizeram, estão livres para ir para casa. Pode ser?
Em casa, os dois tentaram jogar sueca, biriba, pôquer, paciência... e sem paciência um com a outra, ficaram arengando, insultando um à outra. Insultando a outra ao um. Tiveram, então, uma luminosa ideia: ora, há supermercados, e muitos, em outros bairros, atendidos por outras seccionais de polícia! E foram aprontando das deles por toda a cidade de Belém. Conheceram vários delegados, gerentes, seccionais. Não podendo mais fazer o que gostariam na capital, exauridas todas as possibilidades, partiram para “atacar” outra cidade. Começaram por Ananindeua.
Por essa ocasião, espalhou-se uma onda de trotes dessa natureza, todos eles praticados por idosos. Tudo porque se espalhou a notícia da brincadeira ‘anarquista’ do casal de velhinhos, que já havia se tornado um fenômeno de popularidade. Contudo, não se restringiam aos supermercados. Farmácias, lojas em geral, não havia comércio fora do âmbito do ‘protesto’ dos idosos, que agora já não se atém ao simples fato do trote de acréscimo ou troca de mercadorias. Um idoso chegou ao cúmulo de trocar os produtos de uma prateleira para outra, ou de um setor para outro, desorganizando por completo o sistema de arrumação dos produtos, muitas vezes misturando comida com inseticidas, por exemplo.
O clímax de tudo, a exacerbação da ‘brincadeira’, chegou ao limite da paranóia, quando um velhinho entrou em um supermercado vestido de pirata e, com a espada de plástico desembainhada ―uma daquelas dos tais japoneses fajutos chamados de Changemen ―, gritou que estava tomando aquele navio, ele, o Capitão ou o Almirante Tamandaré ou o Alexandrino, sei lá, e que iria enxotar dali todos aqueles contrabandistas paraguaios que dominavam as vendas ali naquele Shopping Center.
Em uma reunião entre delegados das seccionais de polícia da região metropolitana, ficou decidido que teriam de solucionar a questão, de qualquer jeito. Saindo da reunião, que não tratou o assunto como prioritário, visto que outros pareciam mais espinhosos, pelo menos aparentemente, como era o caso das gangues juvenis, dos assaltos chamados de ‘parada dada’, dos sequestros relâmpagos e da superlotação dos presídios, alguns mais chegados resolveram discutir a situação vextória para eles em uma choparaia na praça de alimentação de um shopping. Antes, um deles convidou, a contragosto da maioria, uma colega delegada, mais por educação, já que seria uma delegada apenas entre vários delegados, e ele pensava que ela não aceitaria o convite. Ela aceitou.
Várias torres de chopes depois, alguém entra no assunto:
―Como é que é, a gente vai dar um jeito nessa velharada, mesmo?
―Velharada!? É assim que você trata os velhinhos?
―Olhe, desculpe delegada, não quis ofender. Foi força de expressão. Estou meio estressado. Essa reunião acabou comigo. Além do mais, é que aquele casal de velhotes fez mais uma daquelas bobagens que foram bater lá no meu terreiro. O gerente dessa vez tava uma fera. Desculpe, sinceramente, delegada, sei que sua mãe e seu...
―Não precisa colocar meus pais na berlinda!
―Perdão, de novo!
―Tá, tá... Eu estou tão interessada em solucionar isso, mas não a qualquer custo. Alguém aí sabe por quantas anda aquela emenda dos bingos lá em Brasília, no Congresso?
―O lobista lá disse que tá dando um jeito de apressar a tramitação. Disse que os congressitas tão empenhados.
―Ah! Que bom! Não aguento mais!
―Mas, enquanto isso, o que nós fazemos?
―Cara, não sei quanto a você, mas eu tô a fim de outra torre, que essa aqui já foi. Ei, meu amigo, outra estupidamente gelada!
Todos caíram na gargalhada, inclusive a delegada.

Palavras e coisas

― O seu filho Bituca, ele tá aí?
― Sim, meu jovem mancebo. Que coisa deseja com ele?
― Quero falar de uma coisa...
― Essa coisa que você disse tem a ver com uma música... Deixe-me ver...Ah! “Coração de Estudante!” É isso! Fernando Brant e Milton Nascimento. Ah! Tancredo Neves... Será que teria sido um bom presidente?
― Que coisa é essa que tu tá dizeno, coroa?
― Você disse coisa?!... Cara, digo, garoto, olha só: a música começa assim: “Quero falar de uma coisa/Adivinha onde ela anda/Pode estar dentro do peito/Ou caminha pelo ar...” É uma coisa, não é?
― Agora a coisa é o senhor que tá falando.
― É mesmo. Que coisa, hem? Toda coisa que quero falar, agora não encontro outra palavra para dizer, é só essa tal de coisa ... E por falar nisso, qual a coisa que você queria... coisar... quer dizer, falar com Bituca?
― Até esqueci que coisa era...