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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A nova Biblioteca de Mosqueiro

Com a fluidez do pensamento, meditando um pouco vaga e livremente sobre as coisas, veio-me à mente aquela máxima latina, que não necessita de tradução: “TEMPUS FUGIT”. É, realmente, o tempo alça voos e foge. Em 13/12/2007, o jornalista Elias Ribeiro Pinto publicou matéria enviada a ele por mim sobre a Biblioteca Municipal Cândido Marinho Rocha. Na ocasião, expliquei no artigo que a biblioteca fora criada por decreto do prefeito Coutinho Jorge, em 1987, e que deveria ainda existir, só que no papel, apenas lá, entre traças e fungos, visto que fora “transformada” em auditório, por um agente distrital inconsequente.

Eis aí que, por estes tempos, o TRE convoca-me a prestar serviços nas eleições 2010. A reunião seria na Agência Distrital de Mosqueiro. Ao chegar lá ―era dia 18/09/2010, um sábado―, indicaram-me que seria no “Auditório”, o mesmo prédio da antiga biblioteca. O local estava repleto de gente. Nenhuma cadeira para os futuros mesários se sentarem, nenhum ventilador. Gente pingando de suor. Bem, aquilo jamais poderia ser chamado de auditório! Nem biblioteca poderia ser, mas já o foi.

Em um canto, livros empilhados e amarrados por fios, alguns novos, outros, bem velhos, alguns bem conservados e novos! Outros, nem tanto. O curioso é que estavam ali misturados a pacotes de cerveja e isopores apreendidos pela turma da Secon (Secretaria Municipal de Economia, popularmente chamado de Rapa). Que ambiente para livros, hem?! Mas a surpresa maior veio quando vi, ali entre livros didáticos enviados pelo MEC (que deveriam estar nas escolas para serem entregues aos alunos), o carimbo da Biblioteca, bem próximo de uma pasta, onde se liam anotações de novas doações de livros. Como é? ― pensei. A biblioteca, que foi transformada em auditório, que também não existe, ainda recebe doações de livros?

Foi aí que me veio à lembrança a letra da canção de Caetano Veloso, da época em que ele ainda sabia compor música com letra menos banal que na atualidade:

“Um mero serviçal
Do narcotráfico
Foi encontrado na ruína
De uma escola em construção...

Aqui tudo parece
Que era ainda construção
E já é ruína
Tudo é menino, menina
No olho da rua
O asfalto, a ponte, o viaduto
Ganindo pra lua
Nada continua...”

Trata-se de passagem da canção “Fora da ordem”, do CD Circuladô, de 1991. Analogamente ao que diz a letra, vamos analisar certa situação em Mosqueiro: O Ministério da Educação (MEC), em convênio com o Instituto + Cultura, com a contrapartida (mínima) da Prefeitura de Belém, deveriam construir três bibliotecas públicas na capital do Pará. Das três, uma seria no Mosqueiro. O prédio? Uma ruína, a ruína do Educandário Nazareno, o antigo prédio da Semec (Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Belém), filial de Mosqueiro.

Até aí, tudo bem, pois a revitalização de um prédio histórico é sempre bem-vinda, ainda mais com a finalidade que passaria a ter. O problema vai ser revelado agora: tal instituição, tão essencial, seria entregue em dezembro de 2010. Ou seja, o que é construção, já é ruína, literalmente, assim como o projeto também. Sem a contrapartida da prefeitura, estou convicto, nada poderá sair do papel. Na cabeça dos ilhéus, fica a pergunta: a futura segunda biblioteca de Mosqueiro poderá vir a existir apenas no papel (assim como se pode forjar um cidadão de papel, dobrado ao gosto do origamista, se é que se pode chamar assim a autoridade que faz do povo “gato e sapato”), ficando lá tão-somente a ruína do que deveria ser?

Imagem007 Foto do referido prédio (em ruínas)

Alcir postou

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

(Des)Encontrando

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Saí daqui de minha Ilha,

voando entre nuvens evasivas,

vendo a pardacenta Baía de Marajó

passar abaixo e diante de meus olhos

como uma bela película em Cinemascope,

rápida e volatilmente, e cheguei

aportando em Cachoeira.

A primeira visita a fazer?

Ao chalé,

onde ouvi as vozes de Eutanázio & Mariinha,

lamentosas ecoando entre as paredes,

que em resposta ouvem as do Major Alberto

folheando livros na saleta das tipografias

e declamando poemas para uma Dona Amélia atenta,

que depois vai contar uma historinha

―se não se perder nas líquidas ilusões de sua despensa ―,

para um curioso rapazinho feridento,

com seu carocinho de tucumã no bolso

e uma fértil mente imaginativa,

voando pelos espaços rumo à cidade grande.

Minu latia para os encantados bois

no fundo do quintal, mugindo por mais capim

e menos água, um adeus à sucuri debaixo do jirau.

Almejei por encontrar Andreza,

vestindo sua pele de cobra coral,

quando passeei ao redor da lagoinha.

Em minhá imaginação, vejo esta cena:

O rapaz, pelo buraquinho do assoalho,

querendo pescar jijus, em busca dos peixes,

ou de si mesmo menino brincando

no tanque com os carocinhos de tucumã,

vê a mim, em flagrante, a espiar-lhe,

buscando na poesia nostálgica

de sua trajetória de vida,

uma saída para meu itinerário de labirinto,

sendas abertas para o passado em rememoração,

e um portal quase eternamente

fechado para o futuro.

Imaginei, para muito além do chalé,

todo um mundão de campos,

às vezes verdes, às vezes queimados,

às vezes inundados...

Vi, com estes olhos que a solidão

há de jamais devorar,

o Dr. Edmundo,

no lombo de seu búfalo branco,

mas sem nenhuma donzela na garupa,

a se embrenhar no mondongo,

ou em sua mítica fazenda da família,

os Menezes,

uma paragem fantasmagórica

belamente denominada de Marinatambalo.

O medo me é uma sombra rastejante de Edgar Menezes,

assassino e prefeito de polícia,

paradoxal imagem de injustiça reinante

por todo o arquipélago, reflexo do poder patriarcal

e do latifúndio que poucos premia

e à maioria castiga: “aristocracia de pé no chão”,

chão encharcado da imaginação

de Dalcídio.

E Dadá, onde estará?

em algum lugar,

a remoer suas mágoas e seus irmãos suicidas...

A Lucíola... Didico tocando piston,

ou pescando os já raros peixes miúdos,

que já não podem mais sustentar tantas amásias...

E Rodolfo deve estar dormindo a sesta,

sonhando com a bobina nova de papel

prometida pelo intendente

Dr. Lustosa,

que pôs cerca em tudo quanto é terra

que cerca Cachoeira, proprietário da Fazenda Bem Comum!...

Por onde andarão Tio Sebastião e Dolores?

―Perdido casal por este mundão de terra e água de Marajó?

É gente demais por encontrar

e,

por ser visita tão breve e não planejada,

não me posso ir sem antes

sentir o cheiro de Sabá Manjerona,

ocupdada com homens em seu barraco,

ou por lá mesmo no cemitério

(ou cemiteros?)...

Os campos de Dalcídio,

seus chãos encharcados

,

as vielas escuras,

os campos queimados,

além de terras cercadas

pelo arame farpado,

pela ganância

e

pela lama,

não mais são que as páginas,

linhas e linhas

que a vista percorre vorazmente,

páginas que são pessoas em suas singelas

alegrias e contínuas dores,

tudo-tudo

espraiado extremamente em dez volumes...

Por ali só não pude encontrar Alfredo.

Talvez por que se tenha tornado

ele

uma sombra apenas,

sombra de uma Cachoeira de cartão postal

perdida entre a memória,

as marés

e o sonho,

sei lá se dele

sei lá se meu

sei lá se seu

sei lá se de Dalcídio

sei lá se de todos nós,

leitores,

num folhear de páginas-marés,

num eterno encheparavazaenche...

Ouvi contar, entre vozes de linhas mal-ouvidas,

ou bem,

que

Alfredo

c

a

i

u          por vontade própria, de sua

              Ribanceira rumo ao rio,

cujo curso aflui sabe lá aonde,

levando-o talvez a um oceano

que se tiver fim,

este é

o próprio e inapagável começo.

Acima do espelho d’água

paira a consciência de Dalcídio,

que vê seu personagem rumando

―livre―,

por sua própria alteridade,

para um horizonte distante,

dele só, e único, singular...

Eu, de minha parte,

custa-me fechar o livro

―desfazer a “viagem”―,

Encaixá-lo entre outros dez,

na estante,

sair de casa e ver o mundo,

viver o mundo, para além desta Ilha...

Sair no mundo

a escrever minhas próprias páginas...

10653406

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Você já ouviu falar de Mosqueiro como a terra do “Já-Teve”? Pois é, até cinema já teve

Pedro Veriano, crítico de cinema, escreveu o livro Cinema no tucupi (1999), cujo capítulo “Cinema em Icoaraci e Mosqueiro” trata do Cine Guajarino, o cinema que Mosqueiro perdeu:

Pedro Veriano 2 ScannedImage-2

Cinema em Icoaraci e Mosqueiro

As vilas balneárias do município de Belém, Icoaraci (antes chamada Pinheiro) e Mosqueiro, tiveram os seus cinemas. Icoaraci teve dois: Ipiranga e Guanabara. O primeiro durou mais tempo. Exibiu na sua melhor fase os filmes da empresa Severiano Ribeiro, antes Cinematográfica Paraense Ltda. No fim de carreira, os do empresário Carneiro Pinto, dono do Cinema Argus, no município de Castanhal, considerado o “cabeça de circuito interiorano” (Carneiro fornecia filmes para diversas cidades do Pará e até do Maranhão, como Imperatriz). O Cine Guanabara foi utilizado por outro empresário, Nélio Pinto. Exibiu filmes em 35mm e 16mm. Por pouco tempo.

No Mosqueiro existiu o Guajarino, na Praça da Matriz (Vila). Fundado em 1912, ainda na fase da chamada “cena muda”, sobreviveu até 1976, quando regrediu à bitola amadorista (16mm), exibindo faroeste italiano da firma que pertenceu a Hiran Bechara, dono do cinema do município de Marabá, depois a Manoel Teodoro de Miranda.

O Guajarino foi orientado por muitos anos pelo bancário Paulo Monteiro. Antes dele, pertenceu ao Sr. Bianor Carneiro, que o comprou do fundador, Pires Teixeira. Nos primeiros anos do cinema existia um trem, que o povo apelidava de “Pata Choca”, ligando o centro da ilha à Praia do Chapéu Virado. É interessante observar que a inauguração da linha férrea foi filmada por Ramon de Baños[1].

No dia 13 de dezembro de 1975, eu publiquei em A Província do Pará uma reportagem sobre o cinema de Mosqueiro. Disse, na ocasião, que havia público para uma sessão noturna diária e vesperais aos sábados e domingos durante muitos anos. Filmes como ...E o vento levou e Os dez mandamentos produziam enormes filas e tornavam-se motivo de comentários da população. “―Não tinha televisão, a noite era monótona”, dizia Monteiro. “―As coisas foram mudando com as antenas de TV nos telhados. Chegaram as novelas e ninguém perdia um capítulo para ver um filme...”

Mas o Guajarino não foi o único cinema da ilha que disputa com o município de Salinópolis a frequência dos que procuram balneários em Belém. Em 1955 e 1957 eu mesmo montei um cinema para filmes em 16mm num antigo mercado, no Chapéu Virado, que na época funcionava como escola pública (e voltaria a ser mercado nos anos 70). Como não havia energia elétrica suficiente, puxava um cabo do gerador do Hotel do Russo, próximo do local. As carteiras da escola funcionavam de poltronas. As piadas não falhavam: “―Eu depois de velho voltei à escola...”

A versão 55 foi a mais concorrida. Lembro de uma frequentadora assídua, a então Miss Pará, Gilda Medeiros. Ela se tornaria atriz do cinema nacional, fazendo filme com atores famosos como Alberto Ruschell (de O cangaceiro, versão 1953) e sob a direção de cineastas tarimbados como Fernando de Barros, um dos remanescentes da Cia. Cinematográfica Vera Cruz (SP). Um desses filmes, Riacho de sangue, ganhou distribuição nacional, e muitos anos mais tarde, longe de câmeras e roteiros, Gilda falou-me, com saudades, da produção.

Um episódio curioso que bem ilustra o que representou o cinema alternativo nas férias de julho, no Mosqueiro, aconteceu em 1957. Os filmes eram alugados em Belém de um representante da RKO Rádio, F. Aguiar & Cia. Havia uma programação traçada, mas era possível uma falha. O problema é que a cópia chegava pelo navio (não havia estrada ligando Mosqueiro ao centro de Belém) às 18h30 e a exibição tinha o horário padrão de 20h30. Quando estava anunciado o clássico King Kong, de Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper, chegou, em cima da hora, O seu tipo de mulher, aventura policial com Robert Mitchum e Jane Russell. Eu tinha passado o dia orientando a colocação de um cartaz gigante, na porta do cinema, com o desenho de um gorila. Com a troca do programa, segui direto do trapiche, onde atracava o navio, para a escola-mercado. Cheguei às 19 horas e já havia fila. Muito depressa, arranquei o cartaz de King Kong e escrevi num pedaço de cartolina o título do novo filme. Quando terminei a operação, estava cercado por espectadores indignados. Pensei que, enfim, a mania de cinema ia me legar uma surra. Procurei explicar, mas a vaia não deixou. Corri para o jipe que me transportava nessas aventuras e fui para casa criar coragem para voltar às 20 horas. Voltei, mas não vi público. Aliás, não vi público daí em diante. A falta do King Kong deixou um saldo de descrédito. No último dia das férias (e o cinema só funcionava nas férias), exibi em duas sessões o desenho Alice no País das Maravilhas. Recepção morna. Foi o fim de um tempo. Nunca mais voltei com o projetor para o Mosqueiro. Dez anos depois, o próprio Guajarino encerrou suas atividades com as máquinas jurássicas de 35 mm vendidas. A fase posterior, que eu vi como pré-agônica, durou pouco. O quadro minúsculo da bitola tentou em vão ressuscitar um hábito. Mas nesse tempo a conversa, na vila, era sobre o filme da TV ou a novela das oito.

MOSQUEIRO CINE GUAJARINONesta foto de carnaval, é possível ver-se, ao fundo, parte da fachada do saudoso Cine Guajarino!


[1] O filme curta-metragem, perdido, é Da Vila ao Chapéu Virado de trem, de 1912.


Muito se deve agradecer a Pedro Veriano por essas informações tão preciosas sobre o Cine Guajarino, já que dele nem o prédio ficou, com sua linda fachada.

Referência: VERIANO, Pedro. Cinema no tucupi. Belém: SECULT, 1999, pp. 40-41.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mosqueiro em Letras

Procurando por textos sobre Mosqueiro, para organizar um pequeno banco de dados sobre a Ilha, encontrei alguns poemas, de autores já consagrados pelos leitores e pela crítica, homenageando ufanamente ou denunciando as mazelas locais. Todos eles, de qualquer modo, tematizando a “Bucólica”, inscrevendo-a no âmbito dos registros escritos, sejam eles literários, geográficos, históricos, sociais, culturais, etc., não importa tal fato, no momento, já que o relevante é que se tenham dados (os textos) coletados sobre nosso distrito-ilha. O primeiro dos textos que compilei é este, de Antonio Juraci Siqueira, de seu livro Piracema de sonhos:

Mo(s)queiro

Metamorfose de signos ― fonemas
roídos pelo tempo e pelo uso...

Foram tantos verões, tantos invernos
foram tantos poentes e alvoradas
que a ilha do Mosqueiro e dos encantos
perdeu seus moquéns e seus mistérios.

Em que volta do tempo se perderam
os nossos ancestrais que moqueavam
piabas nas marés tepacuemas?

Hoje a ilha do Mosqueiro, em desencanto,
carrega um S enorme e sibilante
encravado no nome e no destino.




Um perfeito insight de Juraci associar o tema da decadência, muito alardeada quando se faz referência à ilha, à suposta evolução linguística que, em tese, teria dado origem à palavra Mosqueiro, muitas vezes confundida com aquela que o dicionário registra como “lugar onde há moscas com abundância”. Não é um poema de caráter ufanista, como a maior parte do que é produzido em poesia tematizando o lugar.
Garimpamos ainda outro belo poema, sucinto ―quase um poema-pílula―, que diz muito por meio de uma linguagem lacunar, sempre a ser completado pelo leitor o sentido sugerido, muitas vezes diretamente ligado à forma organizacional das palavras distribuídas no branco da página, em um isomorfismo raro entre expressão e ideia, a evocar a bela praia da predileção de Max Martins: Maraú (para alguns, Marahú), onde o poeta viveu por um tempo, na cabana chamada Porto Max. O texto integra o livro Caminho de Marahu, de 1983, e vem a seguir:


Mar-ahu

Não
é a ilha

Não
é a praia

E o mar
(de nos fazermos ao)
é só um nome
sem

a outra margem



Outro que surge, no mesmo livro, com as mesmas sutilezas, agora mais para um haicai que para um poema-pílula, é este:


Marahu

A praia
A tarde se desdiz
te diz
se estende
e te dissolve




Aqui Max explora a vacuidade possível das ondas, sempre sonoras, sempre efêmeras, porém tenazmente repetidas, solvidas dentro de si mesmas, tanto no aspecto vísuo-sonoro quanto semântico, tornando a praia um lugar de nostalgias, liquefazendo o ser dissolvido pela passagem do tempo, que parece fluir vagamente como o próprio pensamento, na contemplação da enseada do Maraú.
Na verdade, tudo o que se possa dizer sobre esses poemas, tanto de Max como de Juraci Siqueira, valem apenas como comentários, visto que os poetas já disseram tudo da melhor maneira possível, e o crítico, refletindo sobre sua obra pode estar banalizando-a, no momento em que tenta explicá-la.

O mastro, de Márcio Barradas, na estreia em Mosqueiro (04/12/2009)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Onde ...



As ondas da praia do Bispo
Nada sabem de você...
No céu plúmbeo,
As nuvens quase equidistantes
Não me cochicham,
Segredando teu destino.

Às garças elegantes,
Grito silenciosa
E desesperadamente
Que não mintam para mim.
As pedras cruelmente calam,
Calam, calam...
Só as ondas falam...

Mas é um idioma
Cujo código desconheço
Por completo...
Ao largo, na baía,
Zombeteiros barcos, gargalhando
Aos pô-pô-pôs,
Despedem-se e vão-se...
E só, eu vou ficando por aqui...

O sol decai em sono lento,
Espargindo pelo panorama
Melancólicos vermelhos,
A impregnar meus lassos olhos,
Abandonados pela luz.

Pergunto às estrelas,
que apenas me piscam, cúmplices
desse segredo, desse mistério
que insiste em não ser revelado...

Que estará fazendo o Meu Amor?
Por quais trilhas estará vagando,
longe longe sem mim, que lamento
por estares em um lugar por mim desconhecido!

Eu, que durmoacordo no Paraíso,
porque é com minha Princesa que divido
o leito, vivo num sonho, devaneio
que não quero nem de longe
que me escapula da vida/vista.

Tudo que mais quero no mundo
é ter você em meus braços...

Sempre... Sempre...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Embora desnecessária, uma defesa

Não é necessária uma leitura tão complexa, como a que nasceria pelo viés da Análise do Discurso, para percebermos que algo incongruente contamina o texto “O bom ditador”, publicado pelo jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto em seu Jornal Pessoal de agosto de 2010, 2ª quinzena. No título – um intertexto com o “bom ladrão”, aquele que no texto bíblico foi crucificado à direita de Jesus, o Nazareno –, o autor sugere que Lula é um ditador porque vai eleger quem lhe sucederá. Fazendo uma analogia com o processo eleitoral estadunidense, será que alguém chamou Bill Clinton de “ditador” por que tentou eleger Al Gore seu sucessor? Ou mesmo o implacável, odioso e belicista George Bush, que indicou o senador John McCain como seu sucessor à Casa Branca (no caso de ser eleito), quem o chamou de ditador? E, no plano nacional, o que dizer de Fernando Henrique Cardoso, que forçou a barra para alterar a legislação eleitoral, reelegendo-se presidente e, a posteriori, tentando também eleger seu sucessor, o mesmo José Serra, atual adversário de Dilma Roussef? E no plano estadual, quem tachou Almir Gabriel de ditador, bom ou mal, infligindo ao povo paraense 12 anos de pessedebismo? Mas, agora, como se trata de Lula, do PT, é tentativa de erigir um regime fascista! Muito me admira também a tamanha absurdidade, em relação a Lula, de afirmações do tipo “morde e assopra”, vindas à luz no texto do respeitado jornalista, mais ao estilo “tipo assim”... Paulo Francis. O Lula pintado por Pinto semelha uma obra do surrealista Salvador Dalí, com o diferencial de que aquele buscava o ilógico e quimérico propositadamente. Resta-nos concluir que, quanto ao Luís Inácio parido pelo texto de Pinto, este seria o que o Dicionário Eletrônico Michaelis-UOL diz que é: “qui.me.ra s. f. 1. Monstro da mitologia grega, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. 2. Criação absurda da imaginação; fantasia, utopia, sonho. 3. Coisa impossível, irrealizável; absurdo.”
Quimera
Lula

Porém, a quimera, como todos vêem, é diferente do “bom brasileiro” (e torneiro mecânico) Lula (redução de Luís, apelido que nada tem a ver com o animal, o molusco), um cidadão do povo.