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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carnaval do Mosqueiro: “La décadence aprés la élégance”

Por Alcir Rodrigues

Após certo tempo de ponderação, penso hoje que a Ilha já teve sua era de glamour carnavalesco, mas que o tempo já levou junto com aquela época e com o que ficou naquela última curva que o mesmo vento fez, quando primeiro fez desaparecer a agremiação carnavalesca chamada de Expediçao Africana, décadas atrás, que rivalizava, naqueles tempos idos, com Os Peles-Vermelhas.

De lá para cá, as agremiações tradicionais, que ainda a custo conseguem suspirar, como a citada Os Peles-Vermelhas, Os Piratas da Ilha (e até mesmo o Tá Feio!), mais algumas outras que surgiram depois, como a Estação 1ª. de Maracajá (agora em 2012 festejando 25 anos de fundação), como o Bacu de Sunga e As Peruas, entre outras, devem muito mais sua existência ao entusiasmo, à alegria e à empolgação dos brincantes e simpatizantes (ou mesmo foliões de última hora) do que a qualquer suposta ação institucional de algum órgão (im) competente, como por exemplo PMB, ADMO (Agência Distrital) ou FUMBEL, que, diga-se de passagem, se alguma coisa realizam, é apenas um arremedo do que poderiam/deveriam fazer.

Por isso, dá uma imensa saudade ficar lembrando das “batalhas de confete”, com desfiles em frente a palanques montados diante das sedes do Parazinho e do Pedreira. Dá saudade também dos “carnavais de salão”, com seus bailes (o do Havaí, o do Vermelho e Branco, por exemplo), com a bandinha que encerrava o Carnaval na “Praça da Vila”, depois de já ter ido buscar os foliões nas sedes dos clubes já citados, Pedreira e Parazinho; isso na manhã de Quarta-Feira de Cinzas.

Saudade também se sente dos desfiles nos quais as agremiações saíam com suas alas fantasiadas, já que hoje praticamente impera o uso de abadás, hábito que veio com a abaianização e consequente perda de originalidade e identidade amazônida, que se podia constatar na presença de figuras carnavalescas típicas, como o Bicho-Folharal e o Homem-Lama, por exemplo, além dos Cabeçudos ou Marcianos, sem falar na miríade de homens vestidos de mulher, trajando uniformes de normalistas ou enfermeiras.

Nesse tempo, o desfile de Carnaval acontecia nas duas praças da Vila, a do coreto, em frente à igreja, que é a Cipriano Santos, e a da estátua, que é a Princesa Isabel, perfazendo uma volta completa em torno do “largo”. Blocos, como o Tá Feio!, aproveitavam o ensejo e davam várias voltas na “avenida do samba”. Alguns relatam o sugestivo e hiperbólico número de 33 voltas dadas pelo referido e teimoso bloco. Não sejamos céticos com relação a isso!...

Foi por esse período que passou a ser disputado um jogo de futebol, no campo do Pedreira, entre os times Bonecas e Deslumbradas, no dia 1º. de janeiro. O evento logo-logo tornou-se tradição. Os atletas, todos homens, um tanto sob efeito etílico, fantasiados de mulheres, exibiam talento e técnica que só os ilhéus daquela época (e talvez alguns belenenses simpatizantes do carnaval daqui) tiveram o direito de testemunhar. Uma pena que tal tradição acabou!...

Os desfiles fantasiados, incluindo alas organizadas e bem divididas, com carros alegóricos coloridos, tudo de acordo com o enredo defendido pela agremiação, também chegou ao fim, junto com o itinerário que cobria o entorno da “Praça”. Hoje, parece que as “otoridades” e dirigentes das agremiações não mais fazem questão de desfiles desse tipo e nesse espaço privilegiado, mencionado por Castro Alves como local pertencente ao povo, no poema “O povo ao poder”, que inicia assim: “A paraça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor”. Sendo esse poeta baiano, em Salvador certa praça recebeu seu nome, para homenagear tão ilustre conterrâneo. Por isso, Cetano, renovando o dito do poeta, diz que “A Praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião”.

Apesar de coerentíssimos, retomando inclusive uma ideia lá da Grécia antiga, quando a praça era espaço privilegiado de discursos e debates de natureza vária (e se chamava ágora), ambos os artistas são contrariados por essa prática retrógrada, aqui de Mosqueiro, de desrealização carnavalesca na praça, que deixa de ser do povo, portanto. E de quem será? Só se pode afirmar de quem não é mais: do folião. Pois aqui, diferentemente de Salvador, o que apraz aos “pensadores” do empreendimento carnavalesco na Ilha é sua marca notória de decadência. Não importa que tal atitude burra espante o turista, que esgane o emprego e a renda, que sufoque a brincadeira e a alegria momescas.

Já em Salvador ocorre o oposto disso: a estratégia logística bem arquitetada dos circuitos de blocos e trios elétricos desvia o trânsito, distribui e controla os agentes de segurança, com o apoio dos órgãos competentes, entre eles, as secretarias de Segurança, do Turismo e da Cultura, privilegiando a liberdade de ir e vir do folião (brasileiro ou estrangeiro), para este brincar seu carnaval alegremente e, claro, retornar nos próximos anos. E tudo tem sua apoteose na Quarta-Feira de Cinzas, na Praça Castro Alves (Esta, sim, do Povo!). Só que issso não representa o fim do evento, só o (re) começo de uma festa que seguirá até o domingo próximo, para a felicidade não só dos foliões da quadra momesca, mas também a dos trabalhadores em geral, que sentem positivamente em seus bolsos o incentivo da economia local aquecida. É um dinheiro muito justo e bem-vindo, para a alegria de todos e felicidade geral, parafraseando o bom viveur D. Pedro I.

É fácil camuflar a falta de vontade política e o descaso usando em defesa disso a bandeira da segurança pública, o respeito à religiosidade, ou sei-lá-o-que-mais; isso é fácil. O que não é fácil é explicar por que se despreza o estímulo ao emprego e à renda, com o incremento ao turismo como ponta-de-lança desse bem. Também não é fácil explicar que não se estimule o lazer, a cultura e a arte locais. Pois o Carnaval também contribui (E muito!) para o desenvolvimento desses setores.

Como se vê, o único incentivo institucional dado é o caminho para o abismo, ou o fundo do poço! Nem direito sequer a uma frase esperançosa, como “Fé no que virá!” Só o que resta, então, é o melancólico destino que deixa na lembrança dos mais idosos aquela frase paradigmática: “Ah! No meu tempo é que era bom!” Agora, no final da estrada, o esperançoso caminhante encontra tão-somente a decadência, os rastros do que “já-foi”, do que “já-teve”. Junto com a decadência, emerge da lagoa o vazio cultural, a mediocridade da ruína e da pobreza (neste caso, em diversos sentidos). Por tudo isso, pede-se o seguinte aos Srs. Gestores dos órgãos competentes (PMB, ADMO, FUMBEL) e aos dirigentes das agremiações carnavalescas: “Chega de décadence aprés élégance. Devolvam a praça e o Carnaval ao povo!”

Por fim, resta dizer que o Carnaval, verdadeiramente, não pode subsistir sem exalar beleza por todos os poros da epiderme na avenida, nem também sem a alegria no coração do brincante, sem o samba no pé (ou o frevo, o maracatu, dependendo do lugar), ou sem as marchinhas saudosas dos tempos idos, embalando no ouvido e na alma de todos o amor incondicional pelo Carnaval, verdadeira e inegável festa do povão.

Apesar dos pesares... Um bom Carnaval para todos. Um abraço para todos os tafeienses de coração, que aqui brindo com uma sequência de fotos resgatadas do ostracismo pelo amigo Gajoba. Também brindamos a todos com o mais ilustre tafeiense, ele o grande inspirador da estética do Bloco, fechando a sequência.

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Munh Rá

Adivinhem quem é?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Esta noite

Noite

Não pude perceber lá fora

a noite de carbono descer

em seu peso e pouso manso

e leve ruflar de asas silentes...

 

Pois aqui dentro, nada posso

notar do que se dissimula

sob o céu de altas estrelas

em ato sublime e cintilante

de vigiarem todas as trilhas

por esta afável Ilha a fora.

 

A umidade cai serenamente

sobre folhas e floresta inteira,

sobre a pelica fria e imóvel

da cobreada horizontalidade

das doces águas dos igarapés;

 

sobre o limo destes telhados,

não só sobre a Bucólica Ilha,

não só sobre toda a Amazônia,

mas também sobre toda a Terra.

É... a noite toma conta de tudo...

 

E eu insulado, no interior fechado

aqui deste meu caroço de tucumã,

sou um encantado, apenas esboço

de uma lenda em que o ostracismo

é um dos emblemas mais notórios.

 

A noite, a Grande Noite Lá Fora,

é bem maior e mais opressora ainda

no interior deste circunspecto peito.

 

Tal treva infinita é a noite universal.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Muriramba

 

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( Vista parcial da enseada do Muriramba)

 

Acolá, como pequenas tsunamis,

vêm vaticinando, lépidos,

os rugidos do mar-baía,

em forma de ligeiros tigres

―com garras e dentes espumantes ―

que atacam e dilaceram

a carne da indefesa falésia

da charmosa enseada do Muriramba...

 

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( Outra vista parcial da enseada do Muriramba)

 

Sangrando, a tabatinga vermelha

se desmancha, manchando

o pardo plasma do mar,

lavando e tingindo areias e rochas,

deslocando devagar as pedras da camboa,

remota lembrança ali deixada

por nossos ancestrais, pedaços

da história viva em pedras,

mixados ao fantasma dos peixes,

siris e camarões, afugentados todos

pela predatória captura industrial...

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( Mais umav ista parcial da enseada do Muriramba) 

 

As garras e dentes espumantes

na verdade sorriem e gargalham,

com sarcasmo

lembrando da afamada máxima:

 

                “Água mole,

                                 em pedra dura,

            tanto bate,

                                             até que fura”...

 

Mas os rugidos espumantes, ali,

não só dilaceram e arrancam nacos,

também lambem e acariciam,

transmudando-se em canções,

barcarolas de ninar, alimentando os devaneios

de quem vê e ouve, além de tudo o mais,

a fantasia e a beleza

de uma perenidade

de

          vaivém e enche-vaza, ondas

       de seres e sombras

, úmidos sons e ecos líquidos

                                  da dança da infinitude do devir...

 

 

 

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(Camboas no Ariramba, com vista da barraca Boêmios, próximas da Embratel. São resquícios do tempo passado, vestígios ancestrais que se recusam -–ainda bem!—a desaparecer, apesar dos apelos massivos e cruéis do “progresso”…)

                           *          *          *

Aproveitando a temática evocada pelo poema, vale a pena conversar sobre duas palavras: ‘Muriramba’ e ‘camboa’. A primeira é tratada hoje como um ‘amálgama’ lexical; ou seja, uma fusão de partes de vocábulos (dois ou mais), originando um híbrido vocabular. Por isso, alguns estudiosos do idioma materno (o português, na expressão brasileira da língua de origem lusa), também usam a terminologia ‘palavra-valise’, por conter dentro de uma palavra outras delas; ou ‘palavra-centauro’, neste caso, acentuando-se, mais ainda, o hibridismo vocabular. Fiquemos com o primeiro. ‘Muriramba’, na Ilha (do Mosqueiro), dá nome à enseada singela que intersecciona as enseadas das praias do Murubira (onde habitaram os indígenas da tribo dos ‘Morobiras’; daí sua denominação) e do Ariramba (espécie pequena de pássaro mariscador, conhecido também pelo nome de martim-pescador, com ocorrência comum naquela área, de onde vem a denominação da praia).

Já a palavra ‘camboa’, de origem tupi, consultando o Vocabulário terminológico cultural da Amazônia paraense (OLIVEIRA, Maria Odaissa Espinheiro de. Belém, EDUFPA, 2005. v. 2, p 70), tem a seguinte entrada no verbete:

Camboa: s.f. Lago artificial à beira-mar, no qual durante a maré alta o peixe miúdo entra. Esteiro que enche com o fluxo do mar e fica seco com o refluxo.

[Vejamos este exemplo dado no livro citado]

“[…] O Coló simplesmente desapareceu da popa da canoa na camboa, no pesqueiro, e até hoje ninguém sabe que fim levou o Coló[…] (C.C.Onde está Coló? Histórias de Cobra Grande. f. 273. Informante – Agripino Almeida da Conceição. Pesquisadora –Ana Cristina Lopes Borges ).”

Em dicionário eletrônico Aurélio, encontrei o seguinte:

Camboa

(ô). [Do tupi.]
S. f.
1.     Cercado armado em pequena depressão, junto ao mar, onde, na maré baixa, fica retido o peixe miúdo que ali penetra na preamar.
2.     Bras.  N.E.  Esteiro que enche com o fluxo do mar e fica em seco com o refluxo. [Var., nesta acepç.: gamboa]
3.     Bras.  MA Processo de pesca em que diversos pescadores, armados com a tarrafa, cercam com as suas canoas o cardume de peixes. `

Para nós, válidas são as duas primeiras acepções.

aproveitando o ensejo em que nos referimos à praia do Ariramba, reproduzimos abaixo uma grande passagem, muito bem-humorada,  da Apresentação do livro Ilha,capital Vila (ROCHA, Cândido Marinho. Ilha, capital Vila. Belém: Falangola, 1973, pp. 12-13):

Recentemente, [naquela época, 1973] um cronista social de Belém passou a citar a Ilha com o adorável adjetivo de bucólica, no sentido de inocente, simples, graciosa e não, certamente, como pastoril ou campestre. Considerando injusta a generalização do título, porque a Ilha não é totalmente pastoril, inocente, simples, graciosa e campestre – resolvemos modificar a qualificação. assim, consideramos bucólica a área abrangida pelos bairros e praias do Chapéu Virado e do Farol por serem os mais prestigiosos pelo elevado nível financeiro dos seus frequentadores, constituída a nomeação assim como uma espécie de sofisticação daqueles bairros. À Vila, em cujo mercado municipal é vendida uma indefinível sopa, demos o título de cólica. Ao bairro Morubira [SIC!], cujas praias apresentavam-se crivadas de pedregulhos, com raras casas de valor e de reduzido movimento social, coube a designação de melancólica. A bela praia do S. Francisco, assim titulada em homenagem a insigne santo da igreja e onde começam a surgir os primeiros prédios custosos, passou a ser católica. Ariramba é bem desenhada e graciosa enseada, de larga praia e limpas areias. Há la o frequentadíssimo bar e botequim “Ponto certo”, propriedade de um obsequioso Oliveira. A praia torna-se ainda mais simpática porque é orlada por alcantiladas ribanceiras, sobre as quais imponentes árvores se erguem, em vistoso balisamento [SIC!]. Em cima, na pista, jardins públicos e quadra iluminada de volei [SIC!], frequentados pelos veranistas, em desfile de beleza e saúde. Uma cabana chamada “Matapy” –em forma de guarda-sol coberto de palhas – é curiosa “boite” [boate, em português] e sede de tertúlias e serenatas, drincagens elegantes. Merece tudo isso justificado capítulo. Os arirambenses fundaram a “Sociedade dos Amigos de ariramba”, que promove o bairro em tempo de férias e das festas da igreja local´. É Ariramba – nome de pássaro que é o mesmo “Martin-Pescador” – pela atração do “Ponto Certo”, onde se bebe, recita e canta, e por sua frequência de gente sem preconceitos, gente natural e fraterna, muito procurada pelos banhistas de todos os outros bairros. À porta e ao balcão do despretensioso bar, aglomeram-se crianças, jovens, senhoras, cavalheiro, em qualquer traje, sem inibição alguma, para amplo relax, em variados tipos de bebidas. Por tudo isso, Ariramba é conhecida como a alcoólica.

Areião, velha e abandonada praia, possuiu grandeza n’outros tempos. Seu prestígio foi exageradamente aumentado pelos episódios decorrentes do rapto de Mainha pelo nosso personagem Zozó. Às vezes desce de prestígio, também exageradamente, pelo acúmulo dos detritos da maré que nela encostam. Consequência: é a hiperbólica.

Em suma, é assim a Ilha. Nem muito autêntica, nem muito irreal.

Tal como no livro.

                             Belém, dezembro de 1972.

(Palavras do próprio Cândido Marinho Rocha, no fundo, um admirador de Mosqueiro, mas também um grande gozador)

                                         *          *          *

Que pensaria Cândido Marinho se soubesse que, décadas mais tarde ao que escreveu, tanto descaso, desprezo e menosprezo pela limpeza e beleza da praia amada e decantada em prosa poética por ele fosse demonstrada pela agência distrital e prefeitura de Belém?

Confira, abaixo, o fato, comprovado em foto, que não me deixa mentir:

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(Fotos batidas na manhã de 21/01/2012 (sábado), por volta das 10:30h. Note-se, ao fundo das duas primeiras fotos, o complexo de torres da Embratel, comprovação cabal de que se trata da praia do Ariramba.)

                                            *     *     *

Apear da desadministração de Dudu e Ivanselina (Ô dupla dinâmica!), a praia ainda tem seu charme, seu pitoresco, sua beleza…

Retomemos as palavras de Marinho Rocha: “Ariramba é bem desenhada e graciosa enseada, de larga praia e limpas areias. Há la o frequentadíssimo bar e botequim “Ponto certo”, propriedade de um obsequioso Oliveira. A praia torna-se ainda mais simpática porque é orlada por alcantiladas ribanceiras, sobre as quais imponentes árvores se erguem, em vistoso balisamento [SIC!]. Em cima, na pista, jardins públicos e quadra iluminada de volei [SIC!], frequentados pelos veranistas, em desfile de beleza e saúde.”

Vejamos essa beleza, nas fotos a seguir, mesmo numa manhã chuvosa:

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(Foros batidas em 21/01/2012)

                                          *     *     *

AS CAMBOAS

Mas é importante salientar que em outros pontos de Mosqueiro as ‘camboas’, uma de nossas riquezas ancestrias, também ocorrem, fato referido na narrativa oral do Sr. Zeca Broa (infelizmente, já falecido há poucos anos), como de fato ele é conhecido pelos amigos.

Narrativa oral do Sr. José Bentes Bahia

Em meio a uma conversa informal, na sua propriedade, bem na beira de um igarapé (chamado de Tamanduaquara) o entrevistado, entre outras histórias, umas sobrenaturais, outras relatando fatos do cotidiano de outrora, algumas jocosas, relatou-nos esta:

Se eu for te contar história, meu irmão,é o dia inteirinho te contando história daqui do Mosqueiro. Tem história bonita e tem história feia.

Esse negócio de achar dinheiro, isso não é mentira, não. O pessoal já acharam muito dinheiro. Porque no livro mesmo diz que a maior fortuna tá enterrada na Baía do Sol, dos cabanos, que aqui tinha o maior forte cabano... a maior... soldado, exército... O Angelim que veio pra cá, o Eduardo Nogueira Angelim, ficou na Baía do Sol, né. Então, lá eles fizeram a camboa. Tem camboa na Baía do Sol que fica a cobra grande, entendeu? Tem até hoje.

Então, lá que eles conseguiram sustentar, né. Tinha 4 mil homens. Quando eles fracassavam em Belém, que eles saía daqui, eles ganhavam a guerra em Belém. Tinha muita gente, soldado.

Então diziam que aqui tá todo o dinheiro, dinheiro vivo. Diz que aqui tá todo o dinheiro enterrado da cabanagem, que eles pegavam todo o dinheiro dos caras, tomavam o dinheiro.

Inclusive, tem uma história do velho Ângelo, do velho Ângelo da Baía do Sol,pai do Beca. Tinha um preto que ficava lá dentro da taberna dele, (...) com ele... Tinha uma parte que vendia peixe que só, peixe. Tinha peixe salgado, que ele mandava praí pro Moju,pra trocar com farinha, milho... encheu canoa pra lá... E tinha um cupuaçuzar lá, tem um cupuaçuzar. Aí ele pegou e disse pro preto assim:

─ Preto ─ chamou lá o nome do preto ─ vai roçar, vai cair cupuaçu, vai logo roçar lá debaixo do cupuaçuzeiro, pra quando começar a cair não dar trabalho.

Aí o cara pegou o terçado e saiu pra lá, e ainda levou o filhozinho dele. Aí, tinha umas árvores dentro do mato. Ele pegou e disse assim:

─ Vai lá naquelas árvores lá.

Aí, quando ele viu, o preto velho, o moleque chegou com o pote.

─ Olhe, pai, esse pote que eu achei no cupuaçuzeiro.

Aí, o velho disse assim:

─ O que deixaram aí nesse pote? Destampa.

Destampou o pote. Tava cheio de moeda de ouro. Era grego... Que naquela época era libra, libra esterlina, né, libra. Era em grego, italiana, né? Aí ele pegou, botou a porra do pote no ombro. Chegou lá, entrou pelo lado assim, que era separado o peixe, era separado do comércio. Aí, ele botou o pote em cima da banca lá. Aí, chegou lá. O velho Ângelo, ele tomava uma cachaça, o velho Ângelo também tomava uma; tomava uma, ele tomava uma...

Aí, ele pegou o velho Ângelo assim pelo braço e disse:

─ Olha, português filha da puta, tu deixa de sacanagem comigo, viu? ─ O preto velho dizendo pro velho Ângelo.

Aí ele:

─ Por que, já?!... Que é?!...

─ Vem cá.

Ele se levanta, chega:

─ Olha lá, vê, foste bota, foste bota o pote cheio de dinheiro lá, pensando que eu sou ladrão. Eu não sou ladrão. Te manca comigo! Te manca comigo, português, viu? Te manca comigo!

Aí, o velho Ângelo disse pra ele:

─ É... agora eu to satisfeito, que deu pra ver que tu não é ladrão. Vai botar isso debaixo da cama.

Ele pegou e foi botar debaixo da cama. O filho do preto é que tirou uma moeda, entendeu? Ele usava, usava diz que lá na Baía do Sol, usava com um fio amarrado no pescoço, a moeda.

Pra tu ver... Aí que o velho Ângelo ficou rico demais, ficou. Essa história todo mundo conta lá na Baía do Sol. Não sou eu, não...

Tem enes histórias que tem no Mosqueiro... Eu te falei outro dia que não tá fazendo 10 anos, não tá fazendo 10 anos, o cara achou aqui no Mari-Mariaçu?... Já ouviste contar essa?

─ Não...

Palavra! Tá ali! Se tu quiser entrevistar o cara, tu vai. Tá vivo o cara! Olha, é mais ou menos assim... Eu não sei bem como é a história... Mas é mais ou menos... Uma vez fui pegar tucunaré, que lá tem muito tucunaré, tem uma mangueira...

E, com a uma expressividade contagiante, seu José quase não me deixava partir para casa, de tanta história que conhece e queria me contar.

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(Foto batida pelo autor do texto, em fevereiro de 2006. Mostra o Sr. José Bentes Bahia em sua propriedade à beira do igarapé Tamanduaquara, no dia em que me concedeu entrevista. Uma figura o ‘seu’ Broa, como era conhecido por muitos. Muito obrigado, Seu Broa!)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Urbe

Por Alcir Rodrigues

Belém pa Telégrafo

 

Minha cidade é um

rio de asfalto monstruoso,

para onde afluem vários

igarapés, na correnteza

levando-trazendo gente,

gente a pé, de bicicleta, moto, carro,

como num gigante pêndulo urbano:

o vaivém de almas e de vozes,

e de anseios longe de serem realizados...

ciadade 3

 

Mas e eu, nesta cidade, sem canoa

para pilotar, sem enchente

e vazante para marcar

meu tempo, meu o-que-fazer,

por que saio como um boto,

nadando/andando sem destino

pelos rios-asfalto-piçarra, buraqueira,

escrevilendo minha vida

nos passos (mal) dados

à sombra dos espigões

dos edifícios, muros gigantes,

torres-cercas, fraseando

uma história sem

início e fim, apenas

meio, um rascunho,

um borrão, uns garranchos...

uns tropeços?...

ciade 5

 

Sou ilha, rodeado de asfalto,

cercado por edifícios,

vigiado por faróis de veículos,

impregnado pela fumaça

dos seus escapamentos,

atacado por assaltantes

e constrangido pela multidão...

cidade 7

 

A cidade, em mim, é lugar

onde nada fiz além

de perambular aos tropeços,

caminhada sem rumo,

como a leitura em que

constantemente se voltam

páginas não entendidas,

porque mal lidas, mal

escritas, mal vividas...

ciade 7

 

Poderia passar uma borracha

permanentemente nesse

capítulo mal escrevivido

de minha vida?

Isolar esse momento,

como isolado andei por lá?

cdade 2

sábado, 12 de novembro de 2011

O grevista convicto

Por Alcir Rodrigues

Dignidade

Aproveito o ensejo da atual greve estadual de professores (também sou um deles, um grevista), para inserir uma repostagem de outras greves, um texto que elaborei com o propósito de abordar alguns aspectos de uma longa, desgastante e penosa greve contra o governador Almir Gabriel (também alcunhado por alguns de Cara de Rato, ou Rato Fujão), quando alguns companheiros, já combalidos pelas ameaças ditadurescas, que nada mais eram senão tentativas de desmobilização da categoria ao estilo de quem só tem como argumento os sofismas (um eufemismo para mentiras) e força bruta, aproveito este ensejo para elevar, espero, o moral da ‘companheirada’, com palavras de incentivo e coragem…

greve

Juntamente com aquela tarde, a reunião já findava. Aparentemente, alguns professores, hesitantes, queriam retornar às aulas. Alguém, calmamente, começou a falar:

─ Vocês conhecem, meus companheiros, O poema “Congresso internacional do medo”? Não, não conhecem? Permitam-me lê-lo: “Provisoriamente não cantaremos o amor,/ que se refugiou mias abaixo dos subterrâneos./ Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,/ não cantaremos o ódio porque esse não existe, / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,/ o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,/ cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,/ cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,/ depois morreremos de medo/ e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

Vocês gostaram? É, alguns, sim... outros menos, outros nem tanto... não é mesmo?

Bem, esse poema, Drummond o publicou no livro Sentimento do mundo, em 1940, durante a II Guerra. Havia realmente no ar o forte clima de angústia, dúvida sobre o futuro do mundo, sobre a liberdade. Pairava na atmosfera uma nuvem cinzenta-enegrecida: o medo, intensamente chovendo sobre a Terra, o medo.

Mas o que se sente agora, entre pessoas do movimento (ou mesmo ─ melhor: principalmente ─ entre aquelas que não aderiram a ele e, muito provavelmente, jamais aderirão), o que se sente não é precisamente o que se pode chamar de medo. Comparado àquela época de real terror, guerra, miséria, morticínio, este nosso momento aprisiona-nos numa abstrata e imensa masmorra de paredes espelhadas, que refletem não mais que um medo irreal, um edifício de aflição ─ desabando sobre nós, mergulhando-nos no mar abissal da fobia, um medo, uma angústia fictícios.

Lei

Que nos pode acontecer, afinal? Irmos para uma guerra e lá perecer/ Sermos levados para guetos ou campos de concentração e trabalhos forçados nazistas e, finalmente, para as câmaras de gás e crematórios? Talvez Jack, o Estripador, nos aterrorize? Quem sabe o Bicho-Papão? Talvez um meteoro caia sobre nós?!... É, é bem possível... ou não? Certamente, somos nós todos excessivamente mais imaginativos que todos os personagens do Sítio do pica-pau amarelo juntos, ou possivelmente mais que o próprio Monteiro Lobato. Por isso, digo: FOBIA, é apenas isto o que oprime nossos corações atormentados. Estamos algemados, e, provavelmente aprendemos a ter afeição pelas algemas.

Quem se importa

Se não tenho medo, é o que querem saber? Claro que tenho! Só os loucos, ou idiotas de carteirinha, afirmam não ter medo. Possivelmente, tenha algumas, senão várias fobias. Entretanto, constantemente faço esta reflexão: se me acovardo hoje, quem ou o que serei eu no futuro? O presente que se acovarda torna-se o futuro que se nega, com uma pesada carga na consciência. O presente metamorfoseia-se no passado do amanhã. No futuro, quero ter orgulho do que fui e fiz neste momento. E não quero a tola postura de hoje me engolindo num assombroso vórtice, no futuro: este vórtice devorador conhecido como remorso.

Não gostaria de ser repetitivo, mas insisto nisto: Digam-me:”Que passado escolheremos agora para o nosso futuro?”

Alguns, sem saber direito o que faziam, quiseram aplaudir. Chegaram outros a subvocalizar talvez uma, duas sílabas, num quase murmúrio, mas calaram-se, como a maioria o fez. A indagação ecoou nas consciências de todos. A mudez, só a mudez foi ouvida ali naquele momento. Contudo, melhor resposta veio dois dias depois, na segunda-feira: a ausência de todos se fez repleta presença de coragem e união daquelas pessoas.

Governador

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

África pós-colonial

Por Alcir Rodrigues

crian

No campo minado,

            a Inocência brinca,

na pele

             de crianças

contentes...

mina

 

Os pais, nas minas

garimpam os diamantes

que alimentam

certa riqueza,

que sai dali

para a Europa;

dali para o Japão;

dali para Cingapura,

para Dubai,

para os EUA...

diam

 

Também fica ali,

mas para uns poucos, apenas:

os senhores da guerra

e da política.

           Movidos pela Ganância,

são profissionais exterminadores,

étnicos e da inocência,

que transformam crianças

em “guerrilheiro” sem causa,

jovens sem porvir,

                     homens sem propósito,

mulheres enviuvadas,

violadas e prostituídas,

mães solteiras,

                 órfãs de filhos, estes

mutilados pelas minas terrestres,

e pelo abuso de poder,

que se camufla em uma

falsa revolução...

mult

 

Pedaços de utopia

vão apressadamente levados

para as precárias instalações médicas,

e dali para o necrotério,

quase irreconhecíveis...

Guerr

 

Nas cidades, a guerrilha.

No campo e na selva, também:

a Violência torna comum

a vida de todos,

                      pobres ou ricos,

mulheres ou homens,

crianças, jovens ou velhos,

negros ou brancos.

                                      Ela já não assusta.

                     Não assombra ninguém:

   Ela é banal...

 

                                  O sangue, ali, é a cor da moda!

Os raios do sol são vermelhos,

a chuva é líquido vermelho.

Rios vermelhos serpenteiam

                                   pelos vales,

                                         e desembocam

             em um mar de sangue...

 

Os Sonhos vão-se embora,

            juntamente

com a Alegria, com os remédios,

com a comida, levando embora

       a mínima Esperança,

que também já agoniza.

Quem veio de mudança

e se instalou

          de forma perene

foram a Fome e a Doença,

               que paridas pela Guerra

crescem bem nutridas

em todos os territórios por ali,

                                         inclusive

no coração e na mente

dos seres humanos.

               A irmã mais nova

já foi plenamente gestada

pelo ventre da Guerra…

crian2

 

Se a Violência, a Fome,

               a Doença e a Morte

são paridas pela Guerra

(e esta é filha legítima da Ganância),

          o Ódio foi abortado

como um inumano monstro disforme,

incumbido de aniquilar

                                 de vez

             a Paz,

e sepultá-la em tumba oculta,

sem Glória,

                nem clamor ou Saudade...

Só que a Paz não jaz em paz!...

Travestida de Fênix Renascida,

ela subjaz em latência,

germinando/brotando

              fortalecendo-se

à espera da Harmonia,

que há de vingar um dia,

nem que seja o último da vida,

           ali, naquele continente desolado!…

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Caruaru é meu destino (Dizem por aí...)

GEDC0951

Cumpro, todas as noites,

Este carma, esta ‘mardição’...

Sobrevoo ruas, casas, prédios...

O cemitério passa lá embaixo,

A igreja já ficou para trás,

Junto com a praça,

O cinema, o mercado,

O trapiche e a praia...

 

Sei que o Caruaru é o meu destino...

Avanço rumo aos igarapés...

 

Tudo é soturnidade!...

Por quê? Por que desta sina?

Que fiz eu? Que mal cometi?

Contra quem? Quem sou eu?

Que metamorfose é esta?!...

Chegam as matas, o frio vem,

Trazido do manguezal e das águas...

 

Do meu propósito me aproximo...

 

O mundo é triste, lá embaixo.

Aqui, a coisa não é melhor...

Nem vivalma vejo, só névoa:

Ninguém para assustar ou surrar.

Passa o Tamanduaquara, passa;

Passa o rio Murubira, passa;

Sigo o Pratiquara adentro...

Lá no Caruaru pousarei:

Quero ver a filmagem.

 

Dizem, dizem por aí: o tal filme,

Este que está sendo feito agora,

Dizem, é sobre mim...

 

Matinta