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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A uma pastora

Qual um pastor arcádico
alimenta o sentimento da terra,
no ato de apascentar o rebanho
na solidez maleável
da verde pradaria,

e no ato de aspirar o puro ar
na concretude pedregosa da montanha,
aliando a isso
ritmar palavras amorosas
à doce pastora sua,
murmurando-as ao seu ouvido,

nascidas elas da transparência
um tanto lacustre
das águas dos ribeirões,
espelhando a fugacidade
diáfana das nuvens lá no céu,

Sim, qual esse pastor,
também eu
― não tão bem como o Poeta Pablo Neruda ―


desenhei estas palavras,
na esperança de também
despertar minha pastora

― de seu sono macio ―

com este poemeto que,
quisera, tivesse a ternura leve



de um beijo cálido.

Bem baixinho...

A saudade é contemplar as nuvens
sem poder com elas levitar
até próximo de onde estás
e sorver no ar o olor
achocolatado
de teu hálito de Afrodite
ameríndia.


É não poder sequer perseguir-te
como um pobre coitado
Apolo a aspirar o aroma de teus cabelos
esvoaçantes na brisa
célere que te rapta
para longe de mim,
até o K2,
onde possivelmente morrerei,
por tu já te teres partido
em tua volatilidade
de monarca, na direção do belo México...

Será meu destino escalar as distâncias de mar e terra
e vento e cordilheiras, sem fim?
Se o for,
é por um transcendental motivo, e isso
não apequenará o meu espírito de amador inconteste.


As distâncias são um obstáculo a se extrapolar, só isso, meu amor.
Sempre apenas isso!

Uma certa dialética das coisas mínimas

Muitos dizem
Ah, no meu tempo...
O meu tempo sempre é hoje!
Mas, no decorrer de 24 horas,
torna-se ontem,
e o amanhã se torna hoje,
que vira ontem...
Nada mais dialetizante
porque mutante,
tempo nunca-sempre-quase
a esgotar-se, inesgotavelmente...
Tempo-vento: o tudo-nada
a bater,
a esbofetear suavemente a face do ilhéu
e desalinhar as madeixas
da cabocla banhista,
a lembrar que outrora
acariciou a cara
do autóctone-índio no moqueio,
o corpo suadensangüentado
do cabano na Batalha,
a defender-se no Chapéu-Virado...
Do veranista no convés
do Presidente Vargas...
Nas janelas do Beiradão,
nas Vans.
Esse tempo-vento, tempo-ventre,
a que porto-futuro
guiará esse barco-ilha
de desencanto-acalanto,
sempre ao mesmo tempo-vento?...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Eterno retorno

Tudo volta, sei.

Tudo é círculo,

tudo é ciclo.

Te amo hoje como ontem.

Ontem numa caverna, é verdade.

Hoje, numa cama, em casa, confortável.

Confortável com ontem, apesar de tudo,

pois aquela era uma boa caverna.



Hoje sei que és a mesma

que milhares de anos

encontrei na bela pradaria

longe-longe da quase cristalina

e imensa geleira.



Estávamos na planície.

Eu sorrateiramente caçava.

Tu coletavas frites,

ervas, raízes.

Nosso amor enraizou aí

quando comemos a carne assada da caça

e as frutas, que dividimos

entre carinhos, toques suaves,

beijos, cheiros

que trocamos sob a árvore-mãe,

na sombra e na frescura,

e no conforto da grama, das folhas,

das flores que abençoavam

nosso matrimônio natural.



Ali mesmo, em certeiras flechadas,

Gotejei meu sêmen em ti.

Te fecundei. Fomos felizes

então, três a partir dali,

uma família já feita.

Nunca mais o frio glacial

Nos enregelaria noite adentro.

Amor, calor, fogueira na lenha

e nos nossos corpos.



Hoje somos os mesmos.

faltam-nos apenas nossos filhotes

que ainda virão,como vieram ontem.



O tempo é um voltar-se

A si mesmo, em ciclos...



O ontem é hoje.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pequenas reminiscências

Abre o baú, e dele saem
(como se da Caixa de Pandora)
aladamente todos os liames
do passado tempo,
fios de memória atando
objetos a lugares e pessoas
dentro de si,
que nasce e morre
na natureza-morta de fatos/fotos e desenhos,
de documentos,
de uma caneta-presente recebida
com muito orgulho, da escola...

Memórias dentro de si se inserem
e fora de si se disserem e evaporam
e têm gosto amargo...
e encharcam os olhos,
quando o baú se fecha
consigo dentro...
(de minha autoria)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Agradecimento

Sempre combativo contra
toda forma de desigualdade,
ele não silenciará jamais,
porque sua voz ecoa
―em metáforas desconcertantes ―
pelas páginas por nós lidas,
suas obras dialogam
com o mundo e denunciam
com sarcasmo peculiar
as contradições
que tanto ainda nos atormentarão
nas trilhas abertas por suas linhas,
e ainda mais por suas entrelinhas,
a levar a luz ao fundo da caverna,
permitindo a mim,
entre muitas coisas,
fugir,
sutilmente como um elefante
viajante,
da ilha desconhecida
onde
―sem nenhuma intermitência―,
pode me aguardar,
com a lucidez de uma cegueira branca,
a minha própria morte,
como a de um Cristo Sem Evangelho!
―sem sequer poder sonhar com a ressurreição―,
como um Ricardo Reis no ano de sua morte,
sempre sabendo o que fazer
com estes seus livros,
estes muito mais que quase objectos,
possíveis mapas,
para em Lisboa fugir
do histórico cerco junto com Fernando Pessoa
e chegar a visitar memoravelmente,
e rápido escapulir,
do convento,
anônimo, ou por todos os nomes
possíveis chamado,
inclusive o de Caim,
irônico rebelde
e gritar
―Saramago, Saramago!
por tudo o que fizeste,
disseste
e
escreveste,
obrigado, muito obrigado,

José Saramago!

terça-feira, 6 de julho de 2010

O f/ato de re/ler

As marcas codificadas carimbadas no papel
emanam sombras, silhuetas enigmáticas
― interpenetrando córneas adentro ―,
e acabam pela íris refletidas de volta no papel...

Os signos então se releem em seu reflexo,
se redimensionam ao se (re)verem,
se repensando no confronto do espelho convexo
binocular de um circunspecto minucioso leitor.

Por seu lado, o cérebro, o ilustre receptor,
interpreta tudo, mas secundariamente:
os dados são sensações (não mais) oculares,
dependentes estas em parte, da visão saudável,
sim ou não, de cada um simples leitor.